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2020 #4 - "Sabor A Terra / A Casa E Os Cães"

Posted by Flur Discos on

Ao longo do mês de Dezembro destacamos um disco por dia. Novidades 2020, reedições ou, até, edições de anos anteriores. A essência é que seja um disco com significado para nós ao longo dos últimos meses. Num ano atípico para todos, mas também num período de grande mudança para a Flur.

Foi há sensivelmente um ano que o Polido nos enviou estes dois álbuns. Ficámos imediatamente rendidos à forma como construía narrativas sonoras sem quaisquer restrições. Com o passar do tempo e após muitas audições, foi-se tornando evidente que existiam aqui - sim - dois álbuns distintos mas que faziam todo o sentido juntos, como uma porta de entrada para a música do Polido. Estes não são os seus primeiros álbuns, mas há algo de passo seguinte aqui.

A unificação de dois álbuns num objecto só pretende também transmitir uma mensagem que transmitem em conjunto. Tanto na banda-sonora para “A Casa E Os Cães” como em “Sabor A Terra” há uma narrativa contínua, os temas não se fecham em si próprios, há uma ligação entre pontos. Polido consegue isto sem retirar identidade e sobrevivência a cada umas canções, por mais curtas que sejam.

E, depois, há outro elemento unificador, que se foi percebendo ao longo de um ano de audições sucessivas destes dois álbuns: é que ambos, apesar de sonicamente diferentes, tocam na mesma ideia de música livre, sem restrições, que não se fecha em géneros mas, a isolar um, é o jazz. Pela forma e não pela matéria.

Há um momento luminoso em “A Casa E Os Cães” em que isto se torna mais tangível: “Outros Cortes”. O correr das palavras, de lugares e nomes, explora uma harmonia e uma narrativa que vai para além daquilo que é imediatamente perceptível. O ritmo e a sobreposição de sons criam uma sensação única de infinito. Ouvem-se milhares de histórias nas vozes daquelas personagens. Essa percepção de “milhares de histórias” é o ponto de partida para ouvir a música de Polido.

Não é música urbana mas uma amálgama de experiências auditivas que vivenciou e tenta replicar, comunicar. É música de quarto mundo? Talvez, mas, arriscamos dizer, é mais complexo do que isso. Em “Sabor A Terra”, do nada, surge algo como “Cantiga D’Amigo” que soa como o melhor genérico alguma vez feito para uma série de animação. Nada nos prepara para isso a meio do álbum e, apesar da surpresa, não destoa da narrativa.

Polido interioriza a ideia de música livre na forma como compõe, transmite. No fundo, agarra uma das essências da música: comunicar. Podemos não chorar com esta música ou encontrar a catarse que por vezes procuramos. Mas descodificamos experiências auditivas. Um mundo de sons.  


Polido tem 26 anos. Vive há sensivelmente quatro em Berlim. Há cerca de uma semana estivemos à conversa com ele, para tentar perceber de onde vêm estes sons. Foi por aí que começámos, Berlim.

Vives em Berlim. O que foste para aí fazer?
Achei que ia fazer um mestrado em Sound Studies. Não cheguei a entrar no mestrado, só fiz a entrevista. Antes disso, tinha estado um ano a estudar alemão em Lisboa. Já tinha essa ideia de vir para Berlim.

Porquê Berlim?
Por causa do mestrado, primeiro. Que me parecia interessante. Berlim, porque de todas as cidades europeias… Londres não queria o hustlin’ e Berlim pareceu-me um bom intermédio entre as cidades que eu já conhecia de viver, que era Lisboa e Porto. E até a nível musical, suficientemente variado. Sabia que a cidade tinha muitos espectáculos, muito filler que não me interessava. Mas do pouco que conhecia, sabia que havia a possibilidade de haver espaços que me interessassem, não ser só esta cena homogénea que passa da cidade.

Viveres aí alterou de alguma forma a forma como pensas sobre música e compões?
Nem por isso, acho eu.

[risos] Só me estou a rir porque habitualmente as pessoas dizem o contrário, dizem logo que sim.
Sim, dizem que sim. Mas o que Berlim fez à minha música foi tornar-me mais consciente de onde venho, do que é o meu espaço de casa. Agora no “Sabor A Terra”, fui-me apercebendo do que eram os meus sons e do que gostava de ouvir, além de música. O que era o meu soundscape, com o que cresci.

Comecemos por aí, quais são os elementos base para “Sabor A Terra”?
No início tinha malhas soltas, que fui fazendo, algumas fui metendo no YouTube. Tinha essa coisa, fazia algo e metia cá fora, com vídeo. O “Sabor A Terra” foi a definição de qual era o meu espaço de casa, de me aperceber que havia cenas bastante específicas com as quais cresci. O “Time Is When” já tem um bocado nisso, mas ainda estou um bocado numa cena de internet, perdido em YouTube. Neste estava a pensar em ideias de casa.


Como te perdias no YouTube?
Isso foi em relação ao “Time Is When” e falo no YouTube como fonte de samples. Algumas das samples que eu uso, há uma faixa do “Time Is When” que tem uma referência, que é JS1C, se procurares isso é o modelo de um glider. Nessa altura, o algoritmo do YouTube não estava muito mau, conseguias controlar o que vias (isto em 2015-2017) e não ser o YouTube a puxar para dentro da sua própria bolha. E eu estava muito interessado em vídeos com poucas visualizações. Canais de pessoas a usarem o vídeo da maneira inicial, documental e contarem histórias. Era um flight log, ou diary log, vídeos de cavalos ou só de espaços… e usava esses vídeos, o som desses vídeos e misturava com as minhas próprias gravações.

Ainda consomes e crias a partir daí?
Nem por isso, esse tempo já passou. Tornou-se mais difícil que isso aconteça de forma natural, o algoritmo está sempre a puxar-te para o que ele quer. Ao longo dos anos fui reparando que precisava de fazer mais coisas para que reagisse da maneira que eu queria, de maneira natural. Isso é impossível agora. Eu mudei-me mais para a rua.

Gravaste o “Sabor A Terra” em Portugal?
Gravo quase tudo em Portugal. Sempre que vou a Portugal gravo imenso, volto para Berlim, arranjo e misturo tudo. Portugal é o que me dá a pica de gravar imenso e ter coisas prontas. Em Berlim consolido e vejo os projectos. Em Portugal há muitas distrações, de amigos, sítios… como não vivo lá, a dimensão de tempo é outra, há outro tipo de prioridades. Prefiro estar com pessoas a estar fechado em casa a trabalhar.

Mas é em Portugal que crias? Não vai contra o que dizes? Ou seja, demoras menos tempo a criar do que a acabar as faixas?
Exactamente, é isso. por vezes não é assim tão bom. Gravo imenso quando estou aí. E há uma espécie de processo de cura. Há meses que não penso em música. No “Sabor A Terra” são dois anos de gravações, mas acabei num mês os arranjos, as misturas todas. A mesma coisa com o artwork.

Que influências entraram no “Sabor A Terra”?
Quando o acabei há um ano pensei mais em que música estive a lançar ou a fazer neste ano que não entrou no “Sabor A Terra”. A cena do “Água Ao Moinho”, que foi uma mixtape/álbum que fiz, foi um bom ponto de partida. Estava a ouvir muito o Nuno Rebelo, Luís Cília, o Zeca Afonso também. O “Água Ao Moinho” solidificou técnicas que estava a trabalhar com música e maneiras de samplar. E tentar codificar ainda mais as coisas. Ou transformá-las de maneira que as referências estejam lá mas não estejam sozinhas. Não seja a sample em loop, mas que consiga transportar outra coisa.

Mas há algo muito urbano no teu som. Que não parece Portugal.
E eu nem gravo em Lisboa. Gravo em São Pedro de Moel.

Exacto.
Pois, é aí que as coisas se tornam… acho que o som não é de Lisboa. São Pedro de Moel, que referência é essa? É uma ideia, um espaço onde não se passa nada disto. As referências, algumas coisas vêm de experiências de clubes, há umas certas faixas que sei que estava a pensar em coisas e ficaram nas faixas. Em pequenos elementos, experiências auditivas. Ao longo dos anos, o que me tem vindo mais a interessar, é o que sinto mais enraizado, situado aos sons que uso. Têm todos experiências auditivas que tive e que quero aplicar. Qualquer músico tenta chegar aí. Trabalhas com os sons que conheces, quando esses sons não são instrumentos convencionais, tens mais possibilidade de acrescentar esse mundo. E não ser incisivo, ser uma coisa mais construtiva.


Ambos os álbuns são muito unificados. Em “A Casa E Os Cães”, mesmo sem ver o filme, há uma envolvência numa história, pela forma como constróis o álbum. A narrativa é uma preocupação que tens?
Sim. Tinha essa ideia inicial em “A Casa E Os Cães”, quando comecei a trabalhar apenas no som do filme, já tinha duas peças de música que para mim, tinham de ser lançadas à parte do filme, e não ficarem lá perdidas. O alinhamento das faixas estava pensado, acabei o disco pouco depois de ter acabado a edição de som do filme, estava a fazer isso – bem como a montagem de som. Fazer o arranjo, transpor a narrativa para o formato de álbum, não era preciso pensar nisso: já sabia a ordem das coisas. Nesse caso, foi mais fácil do que o “Sabor A Terra”, o mundo já estava lá, a ordem, os passos.

Que tipo de som procuraste construir em “A Casa E Os Cães”?
Há um som que existe em comum nos dois discos, que é um teclado que tenho em casa, em São Pedro de Moel. Foi um período que estava a tocar mais piano e fazer gravações de jam sessions, editar e compor a partir dessas longas sessões. “A Casa E Os Cães” tem menos coisas a acontecer, foi um esforço consciente. A trabalhar em filme, tive uma necessidade de respeitar o som envolvente, diegético. E vejo como soa, qual o tom geral de um ambiente de rua, de sala. E a partir daí é que penso que tipo de instrumento ou de arranjo é que faz sentido para mim.

Como era com as outras bandas-sonoras que fizeste?
Ficavam entre o sound design e a banda-sonora. Não sinto a necessidade de fazer um esforço para aumentar a música que já está nesses filmes. Aqui a diferença foi, desde o início, ter momentos que tinham mesmo de ter música. Não era tão ambíguo, tinha de pensar em temas, em temas para o que ia acontecer ao longo do filme.