FLUR 2001 > 2022



Benefício da Dúvida

Maria Reis

Cafetra Records

Regular price €22,00

Tax included.

A ideia de se esperar por uma confirmação do tempo para se experienciar certas coisas existe enquanto desilusão do desespero de viver o presente. É muito mais reconfortante viver noutro tempo. Recordamos outros e saudosos momentos do rock português que ou fizeram parte da experiência ou entraram numa qualquer bandeira de estatuto. Mas esse olhar para o passado, essa vivência da nostalgia enquanto experiência do que ficou por concretizar, não é compatível com exponenciar o presente e metê-lo onde deve existir. Com ou sem comparação. Já dissemos isto várias vezes, por outras palavras, noutros contextos, e a conversa é sempre a mesma: vale a pena abrir a janela e deixar entrar o que toca lá fora, na rua. Isto tudo para perguntar, outra vez, quanto mais vamos ter de esperar para ver Maria Reis acontecer? As Pega Monstro, projecto que tinha com a irmã, editaram o primeiro álbum há dez anos (no ano anterior editaram o primeiro EP, que ainda ateia fogo, "O Juno-60 Nunca Teve Fita"). Depois de "Casa de Cima" (2017), veio a notícia de que as Pega Monstro iam terminar. Agora, com o regresso de Júlia em "Benefício da Dúvida" aprendemos que isto nunca acabou, que não houve pausa, que Maria Reis é Pega Monstro, da mesma forma que Júlia Reis é Pega Monstro. Também não se cultiva aqui o culto da continuidade, mas a ideia de que o que as duas criaram é suficientemente forte para existir sempre em ambas, conforme quiserem, sem conflitos de identidade. Isto porque o que aconteceu em Pega Monstro foi demasiado especial para explodir e ficar ali. Isso é das coisas mais lindas que acontecem quando acabamos de ouvir "Benefício da Dúvida" pela primeira vez. O que Maria Reis tem feito a solo nos últimos anos é uma concretização do seu crescer. O que Maria canta há mais de uma década são experiências de crescer. Profundamente pessoais, perfeitamente relacionáveis, as letras e voz são transparentes, por vezes sentimo-nos dentro delas: tem um dom especial de nos colocar naquele tempo e espaço, de viver tudo o que está à sua volta. E isso acontece sem que ela exija que se viva ou se experiencie a vida dela, acontece graças ao seu dom de comunicar, de expressar voluntariamente essas dores de crescimento misturadas com a experiência de viver. Fala de uma geração sem falar nela. Representa uma geração sem o querer fazer. Quando "Virgem Maria" surge em "Benefício da Dúvida", ficamos convencidos que nem Maria sabe muito bem onde começa e acaba essa Maria/eu que surge nas suas canções. Sem qualquer problema, já se ouve esta canção há muito tempo, e quando se ouve é nova. "Benefício da Dúvida" tem as vantagens do som directo, a crueza do esforço de cantar mais alto do que a guitarra, tocar ainda mais alto para rebentar mais alto, como duas forças num combate, ansiosas por sairem vencedoras. Ouvido bem alto, tudo parece estar ali ao nosso alcance. Tudo é presente, vivo, a exigir que se viva agora e se cresça com Maria. Por isto tudo, explode como se fosse um primeiro álbum, como se Maria Reis estivesse a nascer outra vez. Não está, ela só é assim. E ir nascendo tantas vezes com ela é um privilégio do presente. A salutar, a experienciar, a viver com ela. Só assim se muda tudo.