FLUR 2001 > 2021



666

Aphrodite´s Child

Polygram

Regular price €12,50

Tax included.

CD duplo, colosso, conceptual (uma adaptação das revelações do livro do apocalipse), epítome da contracultura dos 60s/70s: no título do disco, na introdução que o arranca, percebemos que há poucos como este. Tão genuinamente ligado ao seu tempo - os instrumentos de sopro, os pianos, as vocalizações das letras em coro, toda a aura "barroca" e adornada que o disco emana (Sgt. Pepper's?), os solos de guitarra que derretem preconceitos... é a vanguarda da psicadélia e do prog dos 70s. A direcção artística de Vangelis encaminhou a produção do disco para esse lado mais subconsciente, psicadélico, que Demis Roussos evitava. "The Four Horseman" contém soundscapes que se formam entre o refrão, reforçando a noção de um encaminhamento para um outro planeta através das texturas sónicas de um espanta-espíritos e dos echos de uma guitarra. Em "Aegian Sea" ouve-se de um mar de vozes em panorâmica com harmónicos, uma guitarra ensopada em reverb e arpejos sintéticos: interlúdios enquanto microcosmos musicais. Os temas longos são genuínas constelações de ideias que nos diluem as portas da percepção: "Battle of the Locusts" / "Do It", interpretados como um tema só, reforçam a narrativa ininterrupta do disco e de que nada foi metido ao acaso: o destrutivo e célere solo de guitarra é o portal de passagem para um outro lado. "The Wedding of the Lamb" casa os coros de vozes celestiais com uma percussão esparsa que acompanha as devotas melodias em sintetizador tocadas por Vangelis - no fim, e na transição para "The Capture of the Beast", uma máquina monofónica, grave, ataca-nos os tímpanos lado-a-lado com uma percussão mais repetitiva e metalizada, antecipando a estética da música industrial. A verdadeira revelação da vanguarda de "666" encontra-se em "8" - jogos de panorâmica posicionam a voz gutural, sofrida, de Irene Papas sobre uma percussão negra, cada vez mais grave, que nos alerta para o apocalipse (se até aqui ainda não ficaram convencidos com esta ideia, "All the Seats Were Occupied" a certo ponto sobrepõe vários temas do disco, invocando inevitavelmente o caos). Aura intocável, inóspita; um disco sobrenatural, influente, anacrónico, espiritual, milagroso. Talvez a cura para muitos males: é ouvir para crer.