I Am A Bird Now

Antony And The Johnsons

Rough Trade

Preço normal €8,00

Taxas incluídas.
Insignificant handling signs. 2005 album.

Antony é um artista de crescente influência. As palavras afectuosas que o casal Lou Reed e Laurie Anderson regularmente dizem, não só validam o seu valor mas, por pertencerem à antiga vanguarda nova-iorquina, concretizam o desejo do próprio de reencarnar esse passado da cidade e afirmam-no como uma das figuras a mais ter em conta durante 2005 e nos próximos anos. Senão, de que outra forma se justifica que em Portugal, um país onde só agora a sua obra vai ser distribuída, longe das “Kitchens” e das “Knitting Factorys” de Nova Iorque, dos cabarés parisienses e com o panorama gay permanentemente a emergir, tenha contribuído para esgotar salas, primeiro com os Current 93 em 2003 e, no ano passado, com as CocoRosie - forçando até à realização de uma data extra no Porto. Actualmente, Antony é um caso único, que se rodeia e se deixa rodear pelas pessoas certas.
Nasceu na Califórnia, no início da década de setenta, onde passou a sua adolescência. Nesses anos ouviu Kate Bush, Boy George, Marc Almond, Alison Moyet, Diamanda Galas, Billie Holliday, Otis Redding ou Nina Simone, vozes com personalidade, marcantes, que tentava imitar e que hoje apropria, sem pudor. Antony diz: "I spent a few years just listening to Nina Simone. She really had a big influence on me. Her idea about an extreme emotional connection to the voice was so inspiring. As I went through different singers, my voice morphed into its own thing. It's almost like you develop an identity by default. I always think of my voice as a big compilation of all these people. I guess if you put enough ingredients in the pot, you get your own voice."
Em 1990, com 19 anos, depois de ver “Mondo New York”, um documentário sobre perfomers da cena cabaré nova-iorquina dos anos 80, ruma para a grande maçã encantado com Joey Arias, Dean Johnson e Phoebe Legere. Entra no curso de Teatro Experimental na New York University, onde não encontra os néons e flashes da promiscuidade cultural que procurava. Desiste passados dois anos. Começa então a actuar no Pyramid Club, uma espécie de santuário para drag queens. Aí forma e actua com os Blacklips, um colectivo de perfomers composto por toothless perverts, drag queens and punk women, até 1995. Algum tempo depois recebe uma bolsa por artes perfomativas da N.Y.F.A. e forma os Antony And The Johnsons. Começam por actuar em locais como a Kitchen e a Knitting Factory, antes de iniciarem uma residência no Joe´s Pub. Em 2000 lançam o seu primeiro disco, homónimo, pela Durtro, editora de David Tibet (Current 93). Nesse mesmo ano, Antony aparece em «Animal Factory», um filme de Steve Buscemi, a cantar para uma plateia de prisioneiros. Em 2003 Lou Reed convida-o a reinterpretar “Perfect Day” para o seu disco «The Raven» e, mais tarde, para entrar na banda que acompanhou Reed na digressão internacional para promover o álbum. Aí deixou-o interpretar sozinho o tema “Candy Says”, a célebre homenagem do ex-Velvet a uma das estrelas de Warhol e, também, uma das maiores referências de Antony, Candy Darling, a mesma que embeleza a capa de «I Am A Bird Now», numa fotografia exclusiva (“Candy Darling on her Deathbed”, 1974) de Peter Hujar. No ano seguinte os Antony And The Johnsons participam na Whitney Biennial, em Nova Iorque, com a colaboração de Charles Atlas. Juntos desempenham «TURNING», um vídeo-concerto que consistia numa actuação da banda enquanto imagens da performance de treze actores, que se encontravam dispostos atrás dos músicos, eram processadas e enviadas para um écrã gigante. Antony tem a sua segunda aparição no cinema, desta vez em «Wild Side», de Sebastien Lifshitz, cantando “I Fell in Love to a Dead Boy” para uma plateia de transexuais em Paris. No Verão, o primeiro disco da banda é reeditado pela Secretly Canadian (a actual editora) e participa na compilação organizada por Devendra Banhart, «The Golden Apples of the Sun», com o tema “The Lake” (que faz parte de «The Lake» EP, editado também em 2004).
Estamos em 2005, o ano em que o talento raro de Antony se torna transparente em «I Am A Bird Now». Fortemente inspirado – ainda mais – pela Nova Iorque dos anos 60, o segundo álbum de Antony And The Johnsons é uma obra de beleza divina, uma magnífica fábula de quem concretiza os seus sonhos de adolescência, ao encontrar-se com os seus ídolos de então (Boy George, Lou Reed ou mesmo Candy Darling), ou de quem encontra (ou cria) uma cidade do passado e a revive (ou reanima) aqui e agora (as colaborações de Devendra Banhart e Rufus Waynwright não são inocentes). Afastou-se de “Hitler In My Heart” ou de “I Fell in Love to a Dead Boy”, de um cosmos único e pessoal, para se imaginar amamentar-se e criar-se na Nova Iorque de Warhol ou dos Velvet Underground. Em «Antony And The Johnsons» vivia na cidade originada por esse universo, agora, em 2005, adquiriu esse próprio espaço, vive nele e espera mudá-lo. Apesar dessa apropriação, «I Am A Bird Now» é um espaço próprio, um jardim repleto de personagens dispersas, enevoadas, que se mexem, vivem e ganham cor ao longo de cada um dos dez temas dos álbum. Crescem em melancolia, num desespero eloquente que lhes agrada e faz agradar, em temas como “Hope There’s Someone”, “What Can I Do” (interpretado unicamente por Rufus Wainwright) ou na esperança desenfreada “You Are My Sister” (com a colaboração de Boy George) e “Bird Gehrl”. Canções que preparam e compõem fábulas como “My Lady Story”, “Fistfull of Love” (com Lou Reed) ou “Spiralling” (com Devendra Banhart).
«I Am A Bird Now» é uma introdução às vidas, aos segredos, de quem se perde na cidade das luzes, ao fascínio pelo universo das máscaras, dos vestidos-disfarce que transformam e realizam. Um mundo de maquilhagem que só dá a conhecer essa máscara, esse vestido, essa pessoa que acaba por realmente o ser. Antony é isso, uma personagem real. Uma auto-criação de artifícios em constante mutação. «I Am A Bird Now» é um eco da frase anterior. O título, por si só, indica essa metamorfose; «I Am A Bird Now» espelha um auto-retrato, um desejo de transformação que é concretizado – mesmo que seja só no próprio Antony – aqui e agora, mas que fora disso pode-se alterar para qualquer outra coisa, tudo depende do “eu sou” e do “agora”. É um álbum de desejos, de afirmação e confirmação de um artista que não esconde os seus artifícios. Antony é um poço de criatividade de intenção e deu à luz a uma das obras mais belas, apaixonadas e apaixonantes que vamos ouvir em 2005.