Sustained Tones Vol.1
Tiago Sousa
LISTEN:
CLIP1 - CLIP2 - CLIP3 - CLIP4 - CLIP5
Uma tradição que poucos reparam, Tiago Sousa, nos últimos anos, edita uma cassete em Janeiro na Sucata Tapes. Forma de começar o ano. Anteriormente eram os volumes (quatro) de “Organic Music Tapes”, agora o músico começa uma nova fase, “Sustained Tones”. Sem querer deixar isto para o fim, diz-se já: Vol.1 é o melhor álbum de Tiago Sousa. A milhas. Um que facilmente nos imaginamos a pensar nos próximos meses como algo representativo de 2026. Não é saltar muito para a frente, a música fala por si. Tiago anda, já há alguns, a explorar o órgão com uma vertente muito minimalista, repetitiva, andando por harmonias e tons que tocam nas cores de Terry Riley, sem soar a algo emulado. Toda a música que tem editado desde o lançamento do primeiro “Organic Music Tapes”, em 2022, tem servido esta direcção, sem gestos de tentativa e erro, mas de exposição: “este é o estado em que me encontro”. Serviu enquanto plano criativo e, aqui e ali, dava para perceber que a questão não era tanto evolutiva, mas de sedimentação do que importava, do que queria. E essas notas importaram. Eis “Sustained Tones”. Avaliação da matéria dada, mas tremendo passo em frente. Tiago Sousa desliga-se da ideia de “piano” e entra no campeonato das narrativas sonoras. “Sustained Tones” é majestoso, “Readily Reliance”, o tema de abertura, serve de ponte, entre o resto e o agora, mas também como uma forma de mostrar as coisas: Tiago Sousa tem o hábito de começar alguns discos com o tema mais longo, glorioso, como uma forma de pontuar o momento. Estes quinze minutos são isso, com a diferença se não serem só uma coisa e deambularem entre o já referido Tiago Riley e derivações menos musculadas desse som: quase como música para teatro, dança. A transição é lógica e poderosa. Seguem-se temas mais clássicos, paisagens que não são paisagem, mas variações de tom no discurso completo. “Sustanted Tones” torna-se soturno, ambíguo e atinge a estratosfera em “Restlessness”, drone (?) que ao longo da última semana nos convidava a ir verificar se ainda estávamos a ouvir o mesmo disco e especular porque é que tinha mudado para The Caretaker. O tema final, “Becoming a Landscape” (na mouche), é o retiro em suspensão, o “mic drop” de missão cumprida. Janeiro e o Portugal dos pequeninos não estavam preparados para o quão bom é este disco de Tiago Sousa.