Na Sobreda
Tomé Silva
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Ao quarto tema, “Cosmos”, referência ao bar/clube/sala de Lisboa há uma descrição simples, eficaz, do chegar a um sítio, das hesitações, dos problemas das saídas da noite. O desconforto é familiar, a estranheza com os espaços também: "é tão difícil não saltar de conversa em conversa / ficar sempre muito tempo só na mesma”. “Na Sobreda”, álbum brilhante de Tomé Silva, vive nesta ideia permanente, da cabeça de um jovem que não consegue estar presente muito tempo no mesmo sítio. Até porque, como diz algures em “Cosmos”: “a vida vai parar”. A vida não vai parar, mas “a vida [que] vai parar” é uma que já não consegue viver. É um drama estar sempre atrás de qualquer coisa. “Na Sobreda” tem doze canções demasiado maduras para a idade de Tomé Silva, um músico que já experimentou várias praias - até na música de dança -, que tem trabalhado com Maria Reis nos últimos anos e que, se nos é permitido, deve ser a pessoa mais próxima de ter conseguido liricamente aquilo que Maria Reis consegue. É diferente, completamente diferente, mas a fluência, a mensagem estão lá.Tomé é mais regrado, preso numa timidez masculina muito própria. Para lá disso, há os arranjos nas canções, lindos, entre o raw-DYI, melodias de piano absolutamente temperadas pelo slowcore e um tom seco na produção que dá ao som um belo de calor, estranhamente confortável. Os detalhes, nas músicas, são um mimo, as canções revelam pormenores em constância - sobretudo percussivos - e há camadas e camadas de OCD em cada segundo. Para meter ao lado de “Somewhere Good”, dos Tara Clerkin Trio, como um dos grandes álbuns de 2026 sobre o que é existir no mundo em 2026 e querer chegar a algum lado que se sabe que não existe. A vida vai parar ou já parou. Magnífico.