30 OUTUBRO / OCTOBER 2026
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O corpo de trabalho de Niagara é invejável. Fora os lançamentos na Príncipe e os da sua própria Ascender, é fácil perder o fio à meada na quantidade de edições independentes divididas entre CD-Rs, cassetes e vinil deste trio de produtores portugueses. Sempre envoltos numa aura de mistério, "Catedral Gótica" não soa indiferente. "Estação e Torres" impressiona pelo loop eficaz de piano, kick pujante e pratos corridos - onde, de quando a quando, se duplicam e simulam os pratos de uma faixa de trap - até à altura onde o piano sai de cena e entram uns acordes hipnotizantes, sobrepostos adiante por cordas agudas, que consolidam a faixa como uma bomba techno, onde oito minutos soam a um momento efémero, daqueles difíceis de agarrar, hipnotizando o ouvinte e relocalizando-o para um outro lugar elevado - pelo seu fim, tudo se desintegra. "C 00" é techno minimal/maximal, com uma linha de baixo electrificante, a rasgar o campo estéreo, e um padrão percussivo groovy que, durante quatro minutos, permanece inalterado e propõe máxima pujança para pista - adiante, um pad formado por cordas aparece em cena, revelando a alma desta faixa androide. Fugindo a catalogações óbvias, "Springfield, Ma." tem natureza abstracta e propõe pontilhismo eléctrico sobre cordas esperançosas. "Gaivotas" e "Rua do Século" prestam tributo às ruas de Lisboa de diferentes maneiras: se "Gaivotas" também se revela abstracta por natureza, com sub titubeante e com pinceladas sintéticas, de aura nocturna cerrada, "Rua do Século" é ambiental e revela, como poucas outras, o verdadeiro coração emocional de Niagara - das faixas ambientais mais bonitas que já tivemos o privilégio de ouvir no que às produções nacionais dizem respeito? É possível. Um disco a apontar, sempre, para um futuro que não sabemos se próximo ou distante, localizando algures entre o nosso e um outro lugar. Disco mágico.