Inferno
Boards Of Canada
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Acabou-se a espera. Depois de 13 anos, Boards of Canada voltam com um disco infernal. Uma mimetização do real? Uma alegoria religiosa? O que se passa, afinal, em "Inferno"? Há uma continuação do legado deixado noutros discos, o aprimorado na fórmula de som saturada por fita, com síntese retro, batidas à hip-hop, downtempo, samples de vozes processadas, com uma visão do Inferno peculiar, com alegorias religiosas espalhadas pelo disco, como cânticos dos Hare Krishna ou discursos de auto-ajuda e meditação guiada. Talvez o disco mais sombrio de Boards of Canada desde Geogaddi? É bem possível."Introit" arranca com um arpejo em sintetizador harmonizando sob teclas retro, qual presságio de algo vindouro, o negrume sugerido pelo início de "Prophecy at 1420 MHz", antes de dar lugar a licks de guitarra e uma aura de viagem de carro não muito diferente das intenções de Kraftwerk com Autobahn, até voltar ao negrume sugerido pelo seu início com vozes apocalípticas que nos relatam informações sobre novas formas de consciência e ligações ao divino. Sempre com síntese pujante entre as suas linhas rítmicas, "Hydrogen Helium Lithium Leviathan" forma-se a partir do gás deixado pelos pads, pelos ruídos quebrados como se detritos espaciais se tratassem, com a apresentação de nova bassline retro, antes de tudo dar lugar a uma explosão total de cores e formas, pelo seu meio. Boards of Canada continuam a dar luz e cor a paisagens carregadas de negrume. "Father and Son" aterroriza pela maneira como trata os seus samples de voz, desfigurados até à irreconhecibilidade. "Naraka", um dos grandes temas do disco - e com samples de Hare Krishna bem pronunciados - vai fundo nas suas intenções e, sobre uma batida mais relativa aos esforços da Synthwave, cria-se uma faixa carregada de intriga, mistério e uma certa inocência de alguém que olha para os dias de hoje com impotência. "Inferno", na verdade, é um disco pessimista, sem grandes resoluções sobre os problemas que nos lança e com uma lente sobre religião que a escrutina. Mas há cor e luz a serem encontrados em alguns dos cantos deste disco, como na incrível "Memory Death", com bonitos e esperançosos pads a desbravarem novos caminhos num mundo onde tudo parece um beco sem saída. Boards of Canada conseguiram fazê-lo de novo e consolidam-se como das mais coerentes e coesas bandas a sair do contínuo da música electrónica global. Bravo.