LISTEN:
The Crying Game
Em "Romance" pode-se dizer que nada parece o que é. Aliás, se vivermos na ideia de que Gabriel Ferrandini é só um percussionista, fica difícil de viver no mesmo mundo de "Romance". Sete novas peças, seguindo uma linha histórica das deixas industriais que existiam no álbum anterior ("Hair Of The Dog"), este novo capítulo ouve-se como uma continuação natural, onde o fascínio existe na ideia de som e para lá dessa ideia. Ferrandini separa-se das amarras de percussionista e quando antes ainda era perceptível a origem do som, agora é quase impossível, não como desafio, mas como objectivo. "Romance" é música vaporosa, como é a de The Caretaker, mas ao contrário de The Caretaker, tudo nasce do chão, tem raiz, e cresce a partir daí. Há um som 4AD absurdamente manipulado que nos persegue, uma ideia de dub que desaparece pelos vários labirintos que se vão criando, ocasionais momentos de luz que lembram Vangelis de "Blade Runner" ("Crying Game" é maravilhosa) e uma abertura para aceitar, aceitar música de fora, música de dentro. É hauntology do vá para fora cá dentro, um maravilhoso salto criativo. Diferente de tudo o que se possa ouvir. Ontem, hoje. Amanhã não sabemos. Sem precedentes. Um clássico.