Things We Lost In The Fire
Low
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Entre finais do século passado e o início deste, os Low editaram três álbuns na Kranky. Na altura foi marcante, o trio mudou vertiginosamente de registo sonoro. Já não são a banda de “I Could Live In Hope” (1994) ou de “Long Division” (1995) e os catorze minutos de "Do You Know How to Waltz?", que praticamente encerram “The Curtain Hits The Cast”, ressoam como uma espécie de intermissão. A mudança para a Kranky ajudou a perceber uma coisa, que os Low gostavam de ser influenciados pelos produtores. Os dois primeiros álbuns são produzidos por Kramer (que tornou únicas as canções dos Galaxie 500), têm um som que contribuí muito para a aura Low. Steve Fisk transformou “The Curtain Hits The Cast” num objecto cortante. Na Kranky acontece um statment, os Low decidem trabalhar com Steve Albini, que produz dois dos três álbuns na editora: “Secret Name” (1999) e “Things We Lost In The Fire” (2001). Hoje, em 2026, fica fácil olhar para este período, aceitar a mudança. Já sabemos como os Low se adaptam, transformam. Nos últimos anos editaram dois dos álbuns mais arriscados do currículo Low, “Double Negative” e “Hey What”, que são também dois monumentos de som, objectos impossíveis de imaginar que o trio de Duluth seria capaz de conceber sequer quando surgiram na primeira metade dos 1990s. Convidam a pensar no passado os Low, de como o período da Kranky é uma delícia de risco, onde tiram o vazio, o espaço, do seu som e o preenchem com um som de guitarra único (que, por vezes, não tem medo de ser alto) e por uma energia que desafiava os lentos tempos dos primeiros registos: contudo, a música dos Low nunca deixou de ter a sua própria velocidade e momento. Produzido por Albini, “Secret Name”, é um rasgo de libertação. Ainda se sente a contenção da primeira fase dos Low, mas o som respira, deixa de estar preso no fim de cada nota, condicionado a uma intensidade que se fecha em si mesma: durante anos, era isso que apaixonava nos Low, a expressão de uma dor inclassificável. Como viver sem essa dor, portanto, num som livre, que encanta porque continua a ser único, belo? “Secret Name” era um desafio, um desafio superado. Os Low criavam algo de novo sem abandonarem aquilo que eram. Só doía de forma diferente. A explosão acontece com “Things We Lost In The Fire”. E, se há dúvidas, “Sunflower” arruma-as logo. A bateria soa a Steve Albini, a guitarra parece um Fórmula 1 na discografia, até então, dos Low. Ao quinto álbum de originais os Low abrem as janelas, deixam entrar a luz de fora. A luz dos Low vivia dentro deles, havia ali naquele âmago algo que luzia, uma esperança. No álbum de 2001 abrem as portadas, os Low querem ser ouvidos. “Things We Lost In The Fire” é uma tentativa modesta dos Low serem mais acessíveis, sem comprometer. A já referida “Sunflower” e “Dinosaur Act” são esboços de singles. “Medicine Magazine” é de uma candura magnífica, que não nos prepara para o que vem a seguir, “Laser Beam”. Será "Laser Beam” a canção mais triste dos Low? Uma coisa inexplicável, belíssima, contudo há ali pacto com a solidão que é duro, muito duro. Em menos de três minutos os Low justificam tudo, tudo. No ano seguinte, “Trust”, o álbum da recusa, também o último na Kranky. Escolhem Tom Herbers para o produzir e gravar. Tom havia finalizado alguns detalhes de “Things…”. Desta vez os Low jogam em casa, Tom é, como eles, natural do Minnesota e o Third Ear, o seu estúdio, fica em Minneapolis. Os Low regressam ao tubo de ensaio. Só que o resultado desta vez surge sem aviso, não há um álbum a avisar a perfeição. Ela acontece em “Trust”. Em dois anos os Low editam dois álbuns radicalmente diferentes, ambos absolutamente magníficos. Só que “Trust” é o mais próximo de uma obra-prima na sua discografia. Onde o sagrado e o implacável se tocam (logo a abrir, “(That’s How You Sing) Amazing Grace”), o inexplicável acontece (“Canada”) e os Low usam, pela primeira vez, o vazio como um escudo, em canções como “The Lamb” ou “John Prine”. Em “Trust” é como se voltassem ao início, desmantelassem a ingenuidade de “I Could Live In Hope” - um dos grandes debut dos 1990s - e a tornassem numa coisa que existem sempre em vertigem, sem contenção. Fazem-no com autoanálise, o som de “Trust” é aguçado, detalhado, espesso, mas as letras vivem numa constante dúvida, quase como se a banda duvidasse do seu lugar. E talvez até fosse verdade, o álbum seguinte - “The Great Destroyer” - demorou três anos a sair, o período mais longo entre álbuns na carreira dos Low até então. Na Kranky os Low criaram uma história única na música de margens durante a passagem de século. Sem tensão pré ou pós-milenar, apenas a serem humanos, artistas, músicos brilhantes dispostos a mudar com o que os outros viam neles. Para bem de quem os ouve, ainda bem que sempre foram assim.