Sexta-feira, 17 Julho, 2015

LUST 884: ONDINA PIRES


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

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17.7.2015
MÚSICAS E ANDAMENTOS
por ONDINA PIRES

Que estilos de música se ouviam na rádio portuguesa, nos anos 60?
Que alternativas havia? Que públicos?
Enquanto criança, durante os anos 60, não tinha muito por onde escolher –
havia fado, música ligeira portuguesa, algum folclore,
música italiana com Rita Pavone ou Adamo,
música francesa de Charles Aznavour ou Gilbert Bécaud
e depois fado e pouco mais…
Entre 1965 e 1966, de vez em quando, ouvia-se Beatles na rádio.
Era o que eu queria.
Começava logo a dançar, muito contente,
porque no meu sentir infantil aquilo era o retrato da alegria suprema
e a antítese da choradeira piegas do fado institucionalizado
ou do ligeirismo pacóvio num país que tardava no cosmopolistismo internacional.
Por ser muito pequena
eu não sabia que havia alternativas musicais
como algum Rock ou Ié-Ié, como então se dizia,
ou Jazz ou Blues –
quem era rico e moderno podia ir até Londres ou Paris comprar discos,
roupas e ver os filmes da nouvelle vague…
Quem vivia muito modestamente tinha de se contentar com a Rádio Clube Português,
com a Rádio Renascença ou com a Emissora Nacional.
Muito à socapa falava-se de Victor Gomes e dos Gatos Negros,
dos Tártaros, dos Sheiks ou dos Ekos mas não passavam nas rádios.
Eram considerados, pela população geral e pela censura,
como miúdos boémios e sem moral, guedelhudos,
que só sabiam gritar em vez de cantar com trinados maviosos.
Com a Primavera Marcelista,
com o jovem radialista António Sérgio,
com o primeiro Vilar de Mouros e com mais algumas “carolices”
de meia dúzia de jovens ligados à música e às artes,
o final dos 60s e o início da década de 70 ficou mais ritmado,
mais aberto a influências anglo-saxónicas.
O “amor” musical dos meus 11, 12 anos era o grupo Susi Quatro.
Ver aquela menina vestida de cabedal, de guitarra em punho,
rodeada pelos seus rapagões irreverentes, num ritmo sincopado e sexy,
foi uma das maiores descobertas da minha vida.
Sabia eu lá o que era Glam-rock.
À medida que fui crescendo
e com a passagem política e social do 24 de Abril para o 25 de Abril de 1974,
mais “portas” musicais se abriram.
Costumava passar os verões em Coimbra, em casa de família materna.
A minha prima Filomena deu-me a conhecer Rock Progressivo,
Rolling Stones e Pink Floyd, entre outros.
Aderi a tudo porque tudo era novidade para mim.
Porém, entre 1976 e 1977, através das rádios e de discografia de colegas de liceu,
“mergulhei de cabeça” no Punk britânico e americano.
Foi uma epifania monumental.
Queria era Stranglers, X Ray Spex, Eddy & The Hot Rods, Patti Smith, Damned etc, etc.
Dei tudo isso a ouvir, gravado em CA7s da BASF, à citada prima de Coimbra.
Ela não gostou nada!
Fiquei chocada e aborrecida com a atitude dela.
Caramba! Então eu tinha absorvido tudo o que ela me dera a ouvir
e agora desprezava a revolução?!
Como mestres musicais, que muita coisa boa e diferente me deram a conhecer,
destaco o meu amigo e colega do Liceu Camões,
infelizmente falecido, o Toni,
e o meu querido amigo Luís Futre, autêntica enciclopédia musical ambulante.
Ao mesmo tempo que ia devorando Punk, ouvia muito Jazz, Blues,
preferindo o Blues urbano electrificado, ouvia música erudita,
música de intervenção, experimentalismos de Meredith Monk,
sintonizava a Rádio Marroquina, Iggy Pop & The Stooges
e tentava ouvir os programas de rádios piratas.
Ao mesmo tempo, ensaiava os meus toques de bateria em tudo o que alcançava:
latas, congas, tupperwares velhos…
Fazia vocalizações estapafúrdias,
com a cabeça enfiada em jarrões de metal e outras artimanhas cómicas;
construí um violino artesanal…
Fazia trinta por uma linha.
Tive as primeiras aventuras musicais com colegas do Liceu Camões,
tudo muito incipiente e que deu em zero.
Foi com Jorge Ferraz, Vítor Inácio e Madalena “Ghurka”
que tive a primeira banda a sério – Ezra Pound e a Loucura.
Seguiram-se Pop Dell’Arte
(jamais me esquecerei de um dia de chuva, em finais de 1984,
em que transportei uma bateria emprestada, em transportes públicos,
de Campo de Ourique para Odivelas, ao lado de João Peste,
a fim de ensaiar – foi uma provação hercúlea!);
colaboração com Jardim Do Enforcado, The Great Lesbian Show
e actualmente trabalho no projecto multimédia, Cellarius Noisy Machinae,
ao lado de Jorge Ferraz e de Vítor Inácio, encerrando assim, o círculo musical.
Se nunca mais parei,
também a música moderna portuguesa nunca mais parou.
Enganem-se os jovens actuais que dão por certo o que existe actualmente,
ou que nada houve ao longo da segunda metade do séc. XX, em Portugal,
fazendo tábua-rasa do passado.
Tudo começou nos anos 50, muito pobre mas digno, com Joaquim Costa,
Thilo Krassman, Zurita de Oliveira, Victor Gomes
e prossegue até hoje com grupos artilhados de modernas tecnologias
e meios de divulgação de massas que os “avózinhos” nem sonhavam.
No pain, no gain.

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hoje, dia 17, sexta-feira, é o último dia para verem a exposição “under ventures” no palacete dos viscondes de balsemão, no porto. ondina pires, figura insubstituível da nossa música, entre ezra pound ou pop dell’arte,
tem feito alguma justiça de um passado pouco visível: o de outros, através, por exemplo, da edição do livro sobre victor gomes, dos gatos negros, mas, também sobre o seu próprio passado. a exposição recorda a sua vida artística dedicada à música, entre as artes plásticas e a literatura. essas memórias,
paralelas a grande parte da música da segunda metade do séc. XX, estão também aqui, escritas na primeira pessoa.



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Quinta-feira, 20 Novembro, 2014

ONDINA PIRES Juntos Outra Vez: Biografia autorizada de Victor Gomes LIVRO

€ 19,95 LIVRO Ed. de Autor

Bilingue (Português / Inglês), 174 páginas, 21cm x 26cm.

Do press release:

“Juntos Outra Vez: biografia autorizada de Victor Gomes” é uma obra que fala sobre a história de um outro Portugal, ainda desconhecido pela maioria e à espera de ser desbravado por leitores nacionais e estrangeiros. Sempre se falou superficialmente sobre as décadas de quarenta a setenta em Portugal, em certa medida devido às vicissitudes políticas e sociais inerentes ao regime político dessa época: ambientes e ambiências, vivências à flor-da-pele que ficaram cristalizadas no tempo e que estão à espera de serem redescobertas.
O que começou por ser um longo relato de estórias verdadeiras e fabulosas de uma vida cheia de aventuras e emoções resultou numa obra sensorial, quase cinematográfica, cheia de som, cor e imagens. Um autêntico convite à viagem espaço-temporal e um festim estético a nível visual:
Uma infância dura e sem família:
“Uma das memórias mais marcantes, no início de vida no Instituto, eram os guinchos arrepiantes que as hienas lançavam durante a noite – as kizumbas! Os miúdos trancavam-se o melhor que podiam nas camaratas dos tais barracões inóspitos e ouviam aquela chiadeira terrível que mais fazia lembrar um choro fúnebre.”
Um miúdo rebelde e destemido:
“Em janeiro de 1956, quase a fazer dezasseis anos, o Victor enceta outros caminhos profissionais; procura trabalho como actor e como músico. Deambula por Lourenço Marques, junto ao cais, armado em teddy-boy com um gang de sete rapazolas. Seguiam os modelos dos “rebel without a cause” como as personagens protagonizadas pelos actores James Dean e Marlon Brando: poupa cheia de brilhantina, blue jeans, blusão de ganga com a gola levantada, atitude desafiadora ao “sistema”, à coca de namoradinhas.”
Os primeiros amores e dissabores:
“O Victor calçou umas sapatilhas e lá foram dar uma volta até ao Hotel Polana. Conversaram, conversaram, deram as mãos, deram os lábios e … deram outras coisas. Pronto, o Victor fora “caçado” pela ambiciosa “gazela” sul-africana.”
A sensualidade e sexualidade carismática em palco:
“Ao longo dos inúmeros espetáculos dos “Gatos Negros”, os adolescentes afoitos invadiam o palco e desnudavam o Victor arrancando pedaços da roupa de cabedal. Ao fim de algum tempo, as raparigas passariam a fazer o mesmo que o rapazes. Com os bocaditos de cabedal nas mãos tinham a grande lata de ir pedir autógrafos ao Victor, como se aquele material negro se prestasse a ser escrito. Claro que era o Vasco Morgado que financiava as correntes e o cabedal.”
Há fados e fados e este é outro tipo de fado – é o Rock ‘n’ Roll! É o lado histriónico, à beira da vertigem, misturado sabiamente com o calor tropical africano e com as frias pedras da calçada de Lisboa, tantas vezes ziguezagueadas por Victor Gomes esse “globetrotter” ávido de afecto do seu público. Por tudo isto e muito mais… “Juntos Outra Vez”.

NOTA: Artigo sempre sujeito a confirmação de stock e preço

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Quinta-feira, 10 Setembro, 2009

ONDINA PIRES Scorpio Rising – Transgressão Juvenil, Anjos Do Inferno e Cinema de Vanguarda LIVRO

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€ 12,00 LIVRO Chili Com Carne / Thisco

Tendo como ponto de partida «Scorpio Rising», filme de Kenneth Anger rodado em 1964, Ondina Pires (ex-Pop Dell’Arte e The Great Lesbian Show) assina um ensaio sobre grupos motorizados, imaginário sado masoquismo, violência, iconografia, música, sexualidade e ocultismo. Dividido em duas partes, Ondina começa por explorar a iconografia e os mitos em torno do filme de Anger, para depois levantar questões sobre a transgressão juvenil no contexto da cultura pop. Uma última linha apenas para referir o que facilmente se percebe: a bonita capa é de João Maio Pinto.


NOTA: Artigo sempre sujeito a confirmação de stock e preço

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