Sexta-feira, 13 Fevereiro, 2015

LUST 861: PEDRO TENREIRO


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

13.2.2015
DINAMITE
por PEDRO TENREIRO

Pronto.
Já não há como fugir.
É uma evidência.
Sou um nerd.
Talvez não um desses rapazes de óculos que só sabem olhar o chão,
para quem o mundo se confina a um quarto carregado de BD,
onde longas sessões masturbatórias acentuam a sua solidão e, quem sabe,
uma tendência reprimida para o crime em série.
Mas um nerd.
Como explicar esse misto de angústia,
ansiedade, euforia e sei lá mais o quê,
que se manifesta sempre que descubro mais um disco que tenho que ter
e que vou procurar e encontrar e fazer contas à vida para comprar
e ouvi-lo vezes sem conta no Youtube, até ele chegar?
E depois dele chegar,
começar a ressacar se não me vier a acontecer o mesmo com outro
e a seguir com outro e outro?
Dia após dia.
Ano após ano.
Década após década.
Mesmo quando, quase a chegar aos 50,
me esteja a transformar, como todo o bom português,
num homem de família.
Que nerd.
E quando o passado se torna o alvo desta obsessão
ou compulsão ou o que lhe quisermos chamar?
Quando é nos anos 50 e 60 e, às vezes 70,
que se encontra a novidade que parece constantemente fugir à música de hoje,
por mais futurista que seja?
Isso não me tornará ainda mais nerd?
E de repente,
uns amigos mostram-me dois temas desses que,
gravados hoje soam tão sinceramente a 60,
sem lugar na lógica editorial em que participo há mais de 20 anos.
Que fazer?
Ei Nuno! Ei Marco!
E se fizéssemos um 7 polegadas?
Estou teso mas posso vender a minha cópia original do “You can win” dos Bileo,
que o Fryer acabou de reeditar, e fazemos uma vaquinha.
E se vendermos aí umas 200 cópias deste Oliveira Trio
podemos fazer outro a seguir.
Assim nasceram os Discos Dinamite!

—–

discos dinamite! é uma nova editora baseada no porto. 7″ com material novo a soar a clássico, edições limitadas, cuidados técnicos dedicados. pedro tenreiro é um dos responsáveis. já o conhecemos de muitas outras andanças e, no que à flur diz respeito,
os seus edits como dancin’ days entusiasmaram-nos ao ponto de apresentarmos o cd três vezes ao longo de anos em que a cultura de edits reapareceu, venceu e, hoje, quase se tornou em standard. buscando ouro mais atrás, é óbvio que é preciso dinamite para alcançar rocha mais profunda. acaba de sair a primeira edição: oliveira trio. pedimos ao pedro para contar como são as coisas.



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Quinta-feira, 12 Fevereiro, 2015

JESSICA PRATT On Your Own Love Again CD / LP / CASSETE

€ 15,50 € 12,95 CD Drag City

€ 17,95 € 15,50 LP Drag City

€ 8,50 € 7,50 CASSETE Drag City

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2015 ainda agora começou, sim, mas dificilmente produzirá até ao seu fim álbuns suficientes para retirar “On Your Own Love Again” dos melhores do ano. Sim, também é verdade que depois de esvaziarmos o ano que acabou, há sempre um certo entusiasmo por obras que reluzem e nos atraem, havendo muito espaço nas escolhas de uma lista ainda muito arejada. Mas este segundo álbum de Jessica Pratt – uma californiana de 27 anos que nos lembra mais Londres ou Nova Iorque, e parece uma jovem Marianne Faithfull -, tem essas qualidades imediatas para nos fascinar, saltarmos de cabeça e, depois deste entusiasmo inicial, agarrarmos estas canções bem perto do nosso coração. Com um pé num passado glorioso que emula algumas das pérolas britânicas – Vashti Bunyan, por exemplo -, e uma contemporaneidade que lembra, por exemplo, Joanna Newsom, Pratt parece juntar uma infinidade de cenários e tempos numa colecção de canções que são dela e apenas dela. Gravado em casa, num 4-pistas, “On Your Own Love Again” mostra esse resguardo, como se não conseguisse mostrar-nos o que faz de outra maneira. Psicadélico em surdina, elíptico e sussurrante, eis um disco que traz ventos novos de locais que conhecemos muito bem. Repetimos: dificilmente vai deixar a nossa memória de 2015.

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Quinta-feira, 12 Fevereiro, 2015

RUI EDUARDO PAES Bestiário ilustríssimo II / Bala LIVRO

€ 20,00 LIVRO Chili Com Carne / Thisco

O jazz é o fogo inicial, mas este propaga-se alto e largamente. REP deita 50 + 50 textos, capa-contra-capa, neste duplo “Bestiário Ilustríssimo II / Bala”. Música como arte física mas também psicológica, improvisada, estruturada, Ciência, Arte, ícones culturais, tonelada de referências que se ligam na cabeça do autor para uma organização , no papel, em benefício do leitor. Muitos músculos exercitados em 31 anos, nesta relação entre escrita e música. Deixamos o autor apresentar a obra:
“Este livro é, na verdade, dois livros em um. O primeiro é a prometida continuação de Bestiário Ilustríssimo, saído em 2012. O que quer dizer que tem a mesma configuração e a mesma estrutura daquele outro volume, consistindo numa colecção de retratos de uma série de músicos que reputo importantes em várias áreas criativas dos nossos dias. (…) Da mesma maneira, Bala é uma compilação de textos que fui escrevendo para destinos vários. essa diversificada natureza não evitou que eu debatesseo factor tempo na música insistentemente, que já por si é uma arte temporal. Por mais distintas que tivessem sido as solicitações deste trabalho jornalístico ou de análise musicológica, tenho bem a noção de que, ao longo dos anos, é sempre sobre a mesma matéria que escrevo, e isso porque se trata de uma fonte inesgotávele que permite uma observação por diferentes prismas.”

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Quarta-feira, 11 Fevereiro, 2015

ALESSANDRA ERAMO Roars Bangs Booms 7″

€ 9,95 7″ Corvo Records

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Bang bang com a voz, Alessandra Eramo é a artista completa aqui: o desenho da capa é seu, as manipulações sónicas são suas, a voz é sua. Inevitavelmente, tudo isto mexe com o corpo, as expressões faciais, o movimento. Não vemos essa parte mas conseguimos retirar algumas imagens ao ouvir a música. O que é? 8 onomatopeias retiradas do manifesto Futurista de Luigi Russolo (1913), interpretadas, tratadas, jogadas contra si próprias, sujeitas à tensão que Alessandra Eramo lhes imprime. Acontece tudo muito depressa, são 7 minutos no total, tiros seguros e económicos. Sentimos a saliva, a humidade e o punch no microfone.

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Sexta-feira, 6 Fevereiro, 2015

CLOUDFACE Devonian Garden 12″

€ 9,95 12″ (2015 repress) Mood Hut

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Cloudface inaugura o catálogo da Mood Hut, a partir de Vancouver, em 2013. As semelhanças de família com o som da Future Times e de Rhythm Based Lovers são logo notórias. O calor analógico semi-house, semi-boogie, semi-cósmico é muito acolhedor. Cloudface editou na mais esquerdista Opal Tapes em 2014 e, no mesmo ano, viu reeditado outro EP mais antigo (2012), “Wyre Drive”. No final do ano, com este “Devonian Garden” de novo no mercado, dizemos sem problema que é um nome a reter no complicado mapa da música electrónica (de dança?) actual. Sentimento, alguma nostalgia, espaço e marcha robótica, tudo características que sabemos reconhecer ao fim de algum tempo de dedicação ao estudo desse mapa. Depois iluminam-se naturalmente alguns nomes que nos deixam de joelhos, sem vontade de algum dia ter vontade de fazer música porque a que eles produzem já alimenta regiões.

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Quarta-feira, 4 Fevereiro, 2015

HOUSE OF SPIRITS Holding On 12″

€ 12,95 12″ Beats In Space

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REPRESS

+ Peaking Lights dub.

Tim Sweeney explica no programa de rádio Beats In Space que ele próprio é uma espécie de produtor para este disco, mas a execução esteve nas mãos de Tom Noble. É um permanente e incrível break Disco a acontecer ao longo de 8 minutos, sustentando uma voz clássica no meio de cordas clássicas. A mensagem é de resistência e paciência, “sometimes up, sometimes down”, o Senhor dá e o Senhor tira. Profundo para a pista de dança. Mais fundo no lado B, 13 minutos com transformações por Peaking Lights, um dub atlético que prolonga todos os tons mais estranhos numa manipulação que soa feita no momento. Tem longo alcance e capacidade para viver além do momento. A música parece entrar em automático e fixar-se algures na cabeça como uma presença permanente. Rola sem cessar.

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Sexta-feira, 30 Janeiro, 2015

OLIVEIRA TRIO The Worm / Caso De Uma Noite Só 7″

€ 7,50 7″ Discos Dinamite!

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A editora abre com a frase “Duas fatias gordurosas do mais exótico órgão”. É quase imediato, quando se começa a ouvir “The Worm” (original de Bill Doggett), sentir o poder sujo e alto do Eko Tiger (substitui o Hammond utilizado no original). De resto, bateria e baixo fazem o acompanhamento desta estrela. Minimalismo apenas na descrição dos elementos, porque o som nada tem de minimalista: é quente, alto, tem força e poder de locomoção. Viramos para “Caso De Uma Noite Só”, malha de emoção bonita. Energética e sentimental em partes iguais, groove intenso e espalhafatoso (o orgão, mais uma vez, mas também a bateria mais selvagem). Duas fantásticas fantasias inaugurais para a nova editora Dinamite Discos! baseada no Porto e mexida por bom pessoal que conhece como ninguém as linhas históricas com que se cose. Limitado a 300, destinado a desaparecer.

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Segunda-feira, 1 Dezembro, 2014

CHRIS & COSEY Songs Of Love & Lust LP

€ 17,50 € 16,50 LP (2011 remastered reissue) Conspiracy International

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Chega 1984 e Chris & Cosey começam realmente a experimentar a canção pop. Os exemplos da época eram, geralmente, demasiado açucarados para uma real vitória underground. Por outro lado, a Electronic Body Music ainda estava a aprender códigos até cristalizar numa fórmula desinteressante mais para o final da década. Mas uma faixa como “Walking Through Heaven” está ainda a lançar fundações importantes para a EBM, e “Love Cuts” incorpora a canção numa malha sintética dinâmica e futurista. “Driving Blind” e “Talk To Me” são momentos Kraftwerk, em que os robôs são mulheres de carne e osso como as que aparecem no video de “Addicted To Love” (Robert Palmer). Cosey não abandona a tradicional sensualidade do lado escuro. Em “Raining Tears Of Blood” encontramos, por exemplo, um modelo possível para Inga Copeland; “Tantalize” experimenta a arte da sedução mais directa, enquanto as luzes da auto-estrada correm rápido de ambos os lados do automóvel. E “Lament”? Cosey vulnerável. Este álbum alcança a luz ao fundo do túnel e ajuda a elaborar partes importantes do livro de estilos da pop e da electrónica, ainda em 1984, quando se poderia pensar que Kraftwerk, Human League e Depeche Mode já tinham comunicado tudo o que interessava na superfície.

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Quinta-feira, 7 Agosto, 2014

ALESSANDRO CORTINI Sonno CD / 2LP

€ 12,50 CD Hospital Productions

€ 23,95 2LP Hospital Productions

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Num teste cego “Sonno” passaria facilmente como um disco que ainda não se ouviu de Brian Eno. Dos bons. O prospecto ambiental que Alessandro Cortini (responsável pela electrónica dos Nine Inch Nails) propõe aqui é simplesmente maravilhoso e encaixa-se na perfeição na boa tradição de óptimos álbuns ambientais que a Hospital Productions tem editado ao longo da sua vida (e estamos a pensar mesmo no topo dos topos, “Imperial Distorion” de Kevin Drumm”). Aqui talvez tudo pareça derivativo da vaga de kosmische de há uns anos, mas o som de Cortini é frequentemente granular, evocativo e coloca-nos naquele lugar deserto onde só alguns discos ambientais nos conseguem levar. Usando pouco mais do que um Roland MC 202 e alguns efeitos dos pedais, Cortini cria atmosferas reduzidas a um mínimo, a uma simplicidade que sabe evocar os clássicos mantendo uma identidade muito proeminente. É estranho falar de identidade quando se fala em teste cego e Eno no mesmo texto. Mas isso também quer dizer qualquer coisa.

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Quarta-feira, 14 Maio, 2014

VALERIO TRICOLI Miseri Lares 2LP

€ 25,50 2LP PAN

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Há um lado alusivo em “Miseri Lares” que nos faz afastar da música e pensar num tempo em que as editoras tinham uma filosofia mais recta. Em tempos a Pan foi uma editora mais ecléctica e dedicada à música concreta e à electrónica vanguardista. Ao contrário da conclusão habitual, o alargamento da sua filosofia não foi para pior, bem pelo contrário, serviu para quebrar barreiras, alargar horizontes e perceber um pouco melhor as fronteiras, ou a falta delas, na electrónica actual. “Miseri Lares” embora não seja fecho de um ciclo, parece-se como tal. É o regresso de um dos artistas mais queridos da editora, que andava por lá muito antes do boom dos últimos anos. E volta com um disco que desafia os moldes actuais da editora, e que consagra um sentido de estética que é pouco usual e, vale a pena dizer, real na música concreta actual. Há aspiração na música de Valerio Tricoli, um desejo que a sua experimentação com sons continue além daquilo que consagra nos temas. Talvez seja por isso que os temas mais longos de “Miseri Lares” deixem resquícios de ideias nos temas mais curtos em volta, como se fosse um espectro que germinasse naquelas texturas. E o espectro não é uma ideia aleatória, há vozes que se ouvem em “Miseri Lares”, indicações para fins e inícios de frases. Às vezes parece uma reedição da GRM, mas é o presente, dos últimos presentes, da Pan. Maravilhoso.

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