Sexta-feira, 4 Dezembro, 2015

LUST 901: MARCOS FARRAJOTA


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

4.12.2015
“Zeichnungen Des Patienten O.T.”
por MARCOS FARRAJOTA

Esta semana a grande má notícia é justamente esta, dois jornais de notícias vão deixar de existir. Não que tenha muita pena que o Sol e o I desapareçam, não eram lá grande espingarda mas dá no que pensar…

Realmente existe toda esta questão da desmaterialização da cultura, ora porque estamos a ficar habituados a encontrar todos os conteúdos na Web, ora porque por “novo-riquismo” acha-se melhor não ter objectos culturais amontoados nas estantes de casa para estarem todos enfiados num “i-qualquer-coisa” ou no disco rígido do computador. Esta atitude irá trazer mazelas no futuro (se é que já não está a acontecer agora!) porque sem objectos não há referências para a memória, sem memória a ignorância passa a ser o padrão comum. Por isso e antes de mais: viva a Flur e outras “discotecas” que ainda existem para termos nas mãos música… e livros!

Asger Jorn, artista do COBRA e do Situacionismo, escreveu algo curioso em 1962: When one sees the colossal spread of the modern strip cartoon, one wonders why newspapers do not formulate their news in the same way. Como já disse, os dois jornais referidos não eram lá muitos bons mas apostaram em “imagem”, sobretudo o I publicou informação em BD, ilustração e infografia e com isso conquistou algumas gerações perdidas consumidoras de jornais. Em contraponto, olhando para a edição dos 25 anos do Público, alarvemente afirma que os desenhos de Álvaro Siza são “BD e/ou flip-book” porque sim. Na fundação do Público, o seu director Vicente Jorge Silva trouxe muita BD para este periódico, será que foi por isso que ainda gostamos de pensar neste jornal como uma referência?

A verdade é que se os jornais e revistas cada vez vendem menos, parte da culpa é a falta de cultura visual dos seus responsáveis – directores e redacções. Na música já se percebeu que grafismo e discos têm de andar de mãos juntas mesmo que seja para boiar num bandcamp.

Portugal intitula-se um país de poetas mas seria bom mudar isto, seria mais interessante se fosse um país de “poetas gráficos” ou “poetas músicos” já agora.

Entre 2003 e 2010 fiz “tiras humorísticas” sobre discos e concertos. Foi com alguma resistência que consegui metê-las em algumas publicações nacionais – na Finlândia foi muito mais fácil, diga-se, além do que o director da publicação era espanhol! – até que desisti porque… também não sobraram muitas publicações em papel.

Algumas dessas tiras foram reeditadas no meu novo livro, Free Dub Metal Punk Hardcore Afro Techno Hip Hop Noise Electro Jazz Hauntology. Sei que sou um desenhador medíocre e só faço esta auto-publicidade desenvergonhada (desculpem lá!) não porque queira promover-me mas sim porque quero promover é esta ideia de retratar música em BD, e que é o desenho que vai salvar a imprensa portuguesa e o mercado fonográfico e tudo mais. Aliás, já há acólitos que acreditam piamente nesta ideia como é o caso do Tiago da Bernarda, topem lá as criticasfelinas.tumblr.com.

Sim, é isso que queria dizer, olhando prá miséria da imprensa nacional…

—–

desenhador, autor, editor e activista com muito calo nas lutas do underground tipográfico. Chili Com Carne e MMMNNNRRRG são as plataformas mais visíveis para as suas operações, onde agrega um lote de gente dedicada à expressão que não cabe nas páginas de outros, porque muito incómoda, marginal, “estranha” ou simplesmente “porque não pertence”. leiam em cima o seu desabafo / farpa na consciência colectiva.



/ / Etiquetas: , / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 9 Outubro, 2015

LUST 895: RUI PEDRO DÂMASO e VITOR LOPES


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

8.10.2015
“OUT.FEST”
por RUI PEDRO DÂMASO e VITOR LOPES

Há um círculo que este fim de semana se completa.
Em 2004, começámos um festival porque sempre tínhamos sonhado fazer um festival.
Começámos uma editora porque sempre tínhamos sonhado fazer uma editora.
Fazíamos música porque sempre tínhamos sonhado fazer música,
e tudo isso porque à nossa volta todos os dias descobriamos gente com talento e montes de pica
- Lemur, Dance Damage, Loosers, Fish & Sheep, o Manuel Mota, CAVEIRA, Gala Drop – e era mesmo preciso fazer.
Tantos e tantos concertos e discos reveladores e epifanias na ZDB, no Lisboa Bar, no Lounge, nos nossos quartos às voltas no myspace.
E o OUT.FEST fez-se desta música que nos surpreendia e motivava.
Quisemos fazer do Barreiro o epicentro porque já era, e sempre foi, a nossa base para tudo.
Porquê no Barreiro?
Porque não no Barreiro?
Desde então, a pergunta ouve-se cada vez menos.
Faz sentido que a estas margens da música – que para nós e para muitos não são margem de coisa nenhuma – só se chegue atravessando o rio.
E chegamos ao 12º ano de festival. Lisboa continua a fervilhar de gente cheia de talento e de pica e no Barreiro, há sítios que continuam a emergir do esquecimento e outros que já são palco habitual para concertos de meia-noite, e que fazemos questão de mostrar a todos.
Este ano não será excepção: quatro dias, vinte e um concertos, quatro locais diferentes e o OUT.FEST continua a fazer-se daquilo que nos surpreende e motiva. O Barreiro é o epicentro da música-sem-géneros.
É uma cidade para descobertas e reencontros e acolhe-vos de braços abertos.
Até já!

—–

12 anos que falam por si, mas rui pedro dâmaso e vitor lopes também falam por eles. e falam sobre a pica de descobrir, partilhar e fazer música pela pura felicidade de absorver os seus benefícios e transmiti-los a outros. e o veículo mais ideal de que se lembraram,
megalómano e ao mesmo tempo exequível, sonho molhado visível para o mundo e, já ninguém pode negá-lo, mesmo importante na vida cultural da grande lisboa, é o out.fest. acontece nos dias 8, 9 e 10 de outubro de 2015, em vários locais na cidade do barreiro, com prolongamento no domingo. da terra ao céu, música que estica tudo acessível a ouvidos com entusiasmo pelo som. apanhem a info aqui:

http://www.outfest.pt/pt/home-noticias/



/ / Etiquetas: , , / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 25 Setembro, 2015

LUST 893: RAFAEL TORAL


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

25.9.2015
“EVOLUÇÃO”
por RAFAEL TORAL

Por alguma razão nunca me cruzei com o Tim Barnes,
mas ambos sabemos que temos muitos amigos em comum.
Quando soube que estava a programar uma sala em Louisville, Kentucky,
mandei-lhe uma mensagem mencionado isso e que gostaria de lá ir tocar.
Estava prestes a enviar,
quando vejo que chega uma mensagem dele.
Dizia “temos amigos em comum, sempre gostei do teu trabalho,
ouvi dizer que vens aos US
e se vieres para estes lados gostava que viesses cá tocar”.

Estas ligações espontâneas têm sido comuns nas digressões americanas,
encontro sempre um acolhimento generoso numa comunidade
que é uma imensa rede interligada.
Vejo tanta energia e esforço dedicados a me receber
e fazer acontecer eventos a propósito da música que levo,
tantas manifestações de interesse e admiração,
que fico a pensar como cheguei até aqui.
O que motiva estas pessoas?
O amor pela música, certamente.
Perceber que a música que já fiz abre estas portas
dá-me um sentido de responsabilidade e humildade.
Mas indo mais fundo, como cheguei a fazer tal música?
Tenho um talento especial?
E é mesmo minha essa música?
O que me parece é que cheguei aqui porque a vida me trouxe.
Desenvolvi-me em contacto com as pessoas
que tive a sorte de conhecer
e com os lugares que tive a oportunidade de visitar.
Ou seja, toda a minha capacidade de acção tem um eixo,
que é a minha intenção em fazer um caminho,
mas é também feita de todas as experiências
que pude ter e pelas quais estou
e devo estar humildemente grato.

Por isso dou o meu melhor e obrigo-me a evoluir.

—–

por estes dias, rafael toral atravessa os estados unidos, coast to coast, numa digressão onde tem aberto a sua música a algumas novas colaborações. permanentemente mutantes e espontâneas, as suas composições são tão meticulosas como generosas. e é justamente essa generosidade de toral que fez com que tirasse algum do seu tempo, decerto escasso, para nos partilhar a sua evolução, vista através desta extensa viagem de, também, descoberta. o mapa da viagem e outros assuntos relacionados estão, como seria de esperar, na sua página:

http://rafaeltoral.net/



/ / Etiquetas: / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 4 Setembro, 2015

LUST 890: PEDRO RIOS (BRANCHES)


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

4.9.2015
“PARA VER O SOL (SELECÇÕES 2006-2014)”
por PEDRO RIOS (BRANCHES)

O LP “Para Ver o Sol (Selecções 2006-2014)” é uma espécie de antologia do que fiz – cassetes, lançamentos digitais, CD-R – enquanto Branches desde 2006 (está tudo em https://branchesbranches.bandcamp.com). O João Santos da Wasser Bassin, a quem fico grato, e eu escolhemos as canções/peças mais representativas daquele período. Rumo ao futuro.

1. “Mar De Março”: A batida, se bem me lembro, é de um Casio que andava lá por casa. Depois, gravei guitarra em cima de guitarra, todas a repetir uns acordes simples. Gosto deste método de acumulação – nos interstícios das repetições surgem novos caminhos, avenidas ao lado. Nunca a tinha posto num disco.

2. “És uma Campeã”: Um interlúdio do “Casa Nossa” (2014) que parece deixar os teclados e o pedal de delay à solta. Gosto deste lado quase acidental de algumas canções.

3. “Primeira Vez”: O Kamanu, dos DOPO, tinha deixado lá em casa o violino e aproveitei. Dá título à cassete mais ruidosa de Branches, editada em 2012, que recupera gravações de 2008 (!) que julgava perdidas.

4. “Salão Flamingo”: Roubei a batida ao arquivo santo dos anos 60. Em cima dela, guitarras e guitarras, quase cantaroláveis. É a derradeira canção pop de Branches. O vídeo, animado pelo Joel Macpherson (https://www.youtube.com/watch?v=cIAnCtGSngY – obrigado Joel, obrigado Carin), foi uma prenda bonita.

5. “Sol No Terraço”: Quando fiz o “Casa Nossa”, tinha um novo teclado e aprendi a deixar cada instrumento e cada camada respirar. É uma canção pós-mar, quando estás com o corpo feito num oito e o sol te enrola na preguiça.

6. “Delícia De Mar”: Primeiro mergulho pleno nos sintetizadores. Fi-la para o CD-R da digressão com The Exhalers, Lace Bows e Former Selves. A peça plana e borbulha com um sample contemplativo como alicerce. Nunca mais deixei de a tocar ao vivo – sai sempre diferente, claro.

7. “Casa Nossa”: O sample africano deu o mote, a minha guitarra foi atrás, uma, duas, quantas vezes foram necessárias. Poucas canções deram tanto gozo gravar. O nome é uma homenagem à vida a dois.

8. “Laguna Sunrise”: A cassete “Alto Astral” (2010) nem foi bem uma edição – o que fazia era gravar a cassete, à mão, na aparelhagem, a quem ma pedisse. Mas foi um renascimento para Branches, em parte motivado pelos samples incríveis que o Miguel Carvalho me ia mostrando. Voltei a surfar em força por esta altura e isso nota-se.

9. “Cortegaça”: É uma espécie de peça central no “Alto Astral” e foi a “exigência” do João da Wasser Bassin quando ele começou a desafiar-me para esta antologia. Toco Casio e pau de chuva – mais na descontra era difícil.

10. “Zen De Bolso”: Um turbilhão de cordas (guitarra e violino). O pós-“Seiva” levado às últimas consequências.

11. “Yuzu #2″: Talvez a peça mais ambiciosa do “Casa Nossa”. Gosto de pensar nela como techno sem beat, nem corpo, só cabeça no cosmos.

12. “Para Ver O Sol”: A primeira canção do primeiro disco de Branches, o “Seiva” (2006), na saudosa Searching Records, agente de um dos tempos mais bonitos da música portuguesa. Há qualquer coisa de hino que me faz gostar sempre desta canção, que tem guitarra acústica, um sino, taça tibetana e um acordeão de brincar. E o nome projecta o que haveria de ser Branches, como se fosse uma carta de intenções.

—–

como sempre, alguém por detrás do nome. pedro rios foi, durante muitos anos, um nome importante para nos fazer ler a crítica musical no jornal público. foi bom descobrir que o pedro tinha outra voz, mais audível.
branches é o seu projecto vencedor, que corta agora uma meta importante: o seu primeiro lp. para ouvir o seu sol, eis um tutorial valioso feito na primeira pessoa. sigam o seu som, as suas palavras e a sua sombra.



/ / Etiquetas: , / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 7 Agosto, 2015

LUST 887: CELESTE/MARIPOSA


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

7.8.2015
A GRAVAÇÃO DE “KUDIHOHOLA”
por CELESTE/MARIPOSA

Em Outubro de 2014, bem depois de tomada a decisão firme de gravar o Chalo Correia,
subsistiam ainda algumas dúvidas relativamente ao álbum e seu destino.
O entendimento perfeito quanto à sonoridade deixava-nos descansados quanto ao território a ocupar,
mas (por incrível que pareça), não sabíamos quem iria editar o disco, nem quantos temas teria.
Só sabíamos que tínhamos que gravar. A prioridade era dar a conhecer a música do Chalo,
e isso só parecia ao alcance de quem tivesse capital, condições, organização.
Até então, parecia claro que não seríamos nós. A ideia era procurar editor poderoso na Europa ou EUA; entregar a pasta.
O Gustavo, empenhado na captação de som durante a gravação nos Nirvana Studios,
nos intervalos vinha manifestar preocupação por mais esta dádiva à Europa do dinheiro;
“Levam o mel e mandam pra cá 5 tostões e uma nota de rodapé”.

Esta dica, em contexto de escaldamento constante em concursos para fundos culturais,
tornou-se o gatilho para materializar a nossa libertação definitiva
de mais submissões às mãos de burocratas pálidos da arte instituída, enfadonha e distante,
e pouco depois tomámos a decisão de editar nós o disco, fosse como fosse.
Os editores de um disco têm de ser quem o conhece melhor, e quem tem uma visão para a sua sonoridade e futuro.
E esses éramos nós.
O Chalo vive em Lisboa desde 1991, faz parte da cidade, e isso inclui a bagagem angolana que traz com ele.
Esta mistura é Lisboa.
Chega de fotografias centro-europeias e neocolonialistas com honras de “descoberta” que parasitam o nosso trabalho:
Tínhamos de ser valorizados no imediato pelo que já cá anda há décadas!

No palco da sala de espectáculos vazia (que servia de estúdio) estavam Chalo Correia em jeito de maestro,
rodeado de Galiano Neto, Renato Chantre, Nir Paris e João Mouro.
Não estavam bem em “modo estúdio”, mas a música soava a pronta, precisa, muito junta.
Parecia mais um concerto vazio que uma gravação. Afinal, estavam a gravar todos juntos,
em condições que, como dizem os profissionais: “já não se vêem há 40 anos”.
Mas era o que havia, e sendo os músicos experimentados, seria esta a ocasião para gravar um disco com espontaneidade,
groove puro que faz mexer a anca e que, resultando, seria bem mais interessante que o disco contemporâneo-perfeito,
em que o nível de preocupação microscópica cria discos que de tão polidos, implodem e perdem a linguagem.
Tínhamos uma boa ocasião de não fazer esse erro, mas, em boa verdade, também não tínhamos escolha.

O tempo dirá que influência terá “Kudihohola”, mas será dos primeiros discos da história da música portuguesa
a juntar o público português urbano, viajado e curioso, com o público de primeira geração oriunda dos PALOP,
mais fiel às suas tradições e identidade.
Cada vez faz menos sentido que estes públicos estejam separados, e continuaremos a trabalhar para os juntar.

—–

a edição em cd e lp do álbum de chalo correia serve para puxarmos para cima o trabalho de celeste/mariposa, colectivo que, a partir de lisboa, mete a funcionar bailes sustentados por uma missão: “mostrar a portugal e ao mundo a qualidade, vanguardismo e diversidade da cultura dos 5 países africanos de língua oficial portuguesa (palop)”. os bailes conduzem à edição presente (e às futuras que já planeiam)
e a jornada prossegue com a preparação de um documentário sobre a expressão dessa música na cidade de lisboa. áfrica ocupa um bom espaço na capital, espaço económico, espaço humano, efectivo, e um espaço emocional muito grande.



/ / Etiquetas: / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 24 Julho, 2015

LUST 885: PEGA MONSTRO


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

24.7.2015
OUÇA
por JÚLIA REIS (PEGA MONSTRO)

A evolução pessoal e transpessoal é o fenómeno mais interessante a que assisto. Duma forma muito concreta, traduz-se em momentos de descoberta ou desbloqueio, um certo alívio da frustração, e na sua posterior materialização. Duma forma geral, creio que é mais ou menos a definição da experiência artística. O que é curioso é poder observá-la em todos os circuitos (isto é, extra-artísticos) e perceber, naturalmente, que é também mais ou menos a definição daquilo que é impressionante, feliz e exclusivamente humano. No sentido de tentar evoluir, aqui ficam as palavras do Agostinho da Silva:
“Se grandes invenções ou descobertas, como o fogo, a roda ou a alavanca, se fizeram antes que o homem fosse, historicamente, capaz de escrever, também se põe como fora de dúvida que mais rapidamente se avançou quando foi possível fixar inteligência em escrita, quando o saber se pôde transmitir com maior fidelidade do que oralmente, quando biblioteca, em qualquer forma, foi testamento do passado e base de arranque para o futuro. A livro se veio juntar arquivo, para o que mais ligeiro se afigurava; e fora de bibliotecas ou arquivos ficaram os milhões de páginas de discorrer ou emoção humana que mais ligeiras pareceram ainda, ou menos duradouras. Escrevendo ou lendo nos unimos para além do tempo e do espaço, e os limitados braços se põem a abraçar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia.
Milhões de homens, porém, no mundo actual estão incapacitados de escrever e de ler, muito menos porque faltam métodos e meios do que incitamento que os levante acima do seu tão difícil quotidiano e vontade de quem mais pode de que seus reais irmãos mais dependam de si próprios do que de exteriores e quase sempre enganadoras salvações. Mais se comunica falando do que de qualquer outra forma; o que nos dizem muitas vezes nos parece de nenhuma importância, mas talvez tenha havido uma falha na atitude de escutar do que no conteúdo do que se disse; porventura a palavra-chave estava aí, mas estávamos distraídos, ou ansiosos por nós próprios falarmos; e no vento fugiu, a outros ouvidos ou a nenhuns. Ouça. (…) Imagem o cerca. Veja.
Mas o que vê e ouve ou lê nada mais lhe traz senão matéria-prima de pensamento, já livre de muita impureza de minério bruto, porquanto antes do seu outros pensamentos o pensaram; mas, por o pensarem, alguma outra impureza lhe terão juntado. Nunca se precipite, pois, a aderir; não se deixe levar por nenhum sentimento, excepto o do amor de entender, de ver o mais possível claro dentro e fora de si; critique tudo o que receba e não deixe que nada se deposite no seu espírito senão pela peneira da crítica, pelo critério da coerência, pela concordância dos factos; acredite fundamentalmente na dúvida construtiva e daí parta para certezas que nunca deixe de ver como provisórias, excepto uma, a de que é capaz de compreender tudo o que for compreensível; ao resto porá de lado até que o seja, até que possa pôr nos pratos da sua balancinha de razão. A tudo pese. Pense.” in ‘Textos e Ensaios Filosóficos’.

—–

muitas das palavras que júlia reis (e a sua irmã, maria) querem dizer ao mundo estão, por agora, nesse corpo explosivo chamado pega monstro. na semana em que “alfarroba” aparece nas lojas, pedimos algumas palavras mais sobre esta etapa, sobre como a evolução para o segundo álbum acontece e tudo se materializa num conjunto de canções certeiras. no meio do labirinto que é a evolução, entram, bem a propósito, as palavras de agostinho da silva.



/ / Etiquetas: / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 17 Julho, 2015

LUST 884: ONDINA PIRES


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

17.7.2015
MÚSICAS E ANDAMENTOS
por ONDINA PIRES

Que estilos de música se ouviam na rádio portuguesa, nos anos 60?
Que alternativas havia? Que públicos?
Enquanto criança, durante os anos 60, não tinha muito por onde escolher –
havia fado, música ligeira portuguesa, algum folclore,
música italiana com Rita Pavone ou Adamo,
música francesa de Charles Aznavour ou Gilbert Bécaud
e depois fado e pouco mais…
Entre 1965 e 1966, de vez em quando, ouvia-se Beatles na rádio.
Era o que eu queria.
Começava logo a dançar, muito contente,
porque no meu sentir infantil aquilo era o retrato da alegria suprema
e a antítese da choradeira piegas do fado institucionalizado
ou do ligeirismo pacóvio num país que tardava no cosmopolistismo internacional.
Por ser muito pequena
eu não sabia que havia alternativas musicais
como algum Rock ou Ié-Ié, como então se dizia,
ou Jazz ou Blues –
quem era rico e moderno podia ir até Londres ou Paris comprar discos,
roupas e ver os filmes da nouvelle vague…
Quem vivia muito modestamente tinha de se contentar com a Rádio Clube Português,
com a Rádio Renascença ou com a Emissora Nacional.
Muito à socapa falava-se de Victor Gomes e dos Gatos Negros,
dos Tártaros, dos Sheiks ou dos Ekos mas não passavam nas rádios.
Eram considerados, pela população geral e pela censura,
como miúdos boémios e sem moral, guedelhudos,
que só sabiam gritar em vez de cantar com trinados maviosos.
Com a Primavera Marcelista,
com o jovem radialista António Sérgio,
com o primeiro Vilar de Mouros e com mais algumas “carolices”
de meia dúzia de jovens ligados à música e às artes,
o final dos 60s e o início da década de 70 ficou mais ritmado,
mais aberto a influências anglo-saxónicas.
O “amor” musical dos meus 11, 12 anos era o grupo Susi Quatro.
Ver aquela menina vestida de cabedal, de guitarra em punho,
rodeada pelos seus rapagões irreverentes, num ritmo sincopado e sexy,
foi uma das maiores descobertas da minha vida.
Sabia eu lá o que era Glam-rock.
À medida que fui crescendo
e com a passagem política e social do 24 de Abril para o 25 de Abril de 1974,
mais “portas” musicais se abriram.
Costumava passar os verões em Coimbra, em casa de família materna.
A minha prima Filomena deu-me a conhecer Rock Progressivo,
Rolling Stones e Pink Floyd, entre outros.
Aderi a tudo porque tudo era novidade para mim.
Porém, entre 1976 e 1977, através das rádios e de discografia de colegas de liceu,
“mergulhei de cabeça” no Punk britânico e americano.
Foi uma epifania monumental.
Queria era Stranglers, X Ray Spex, Eddy & The Hot Rods, Patti Smith, Damned etc, etc.
Dei tudo isso a ouvir, gravado em CA7s da BASF, à citada prima de Coimbra.
Ela não gostou nada!
Fiquei chocada e aborrecida com a atitude dela.
Caramba! Então eu tinha absorvido tudo o que ela me dera a ouvir
e agora desprezava a revolução?!
Como mestres musicais, que muita coisa boa e diferente me deram a conhecer,
destaco o meu amigo e colega do Liceu Camões,
infelizmente falecido, o Toni,
e o meu querido amigo Luís Futre, autêntica enciclopédia musical ambulante.
Ao mesmo tempo que ia devorando Punk, ouvia muito Jazz, Blues,
preferindo o Blues urbano electrificado, ouvia música erudita,
música de intervenção, experimentalismos de Meredith Monk,
sintonizava a Rádio Marroquina, Iggy Pop & The Stooges
e tentava ouvir os programas de rádios piratas.
Ao mesmo tempo, ensaiava os meus toques de bateria em tudo o que alcançava:
latas, congas, tupperwares velhos…
Fazia vocalizações estapafúrdias,
com a cabeça enfiada em jarrões de metal e outras artimanhas cómicas;
construí um violino artesanal…
Fazia trinta por uma linha.
Tive as primeiras aventuras musicais com colegas do Liceu Camões,
tudo muito incipiente e que deu em zero.
Foi com Jorge Ferraz, Vítor Inácio e Madalena “Ghurka”
que tive a primeira banda a sério – Ezra Pound e a Loucura.
Seguiram-se Pop Dell’Arte
(jamais me esquecerei de um dia de chuva, em finais de 1984,
em que transportei uma bateria emprestada, em transportes públicos,
de Campo de Ourique para Odivelas, ao lado de João Peste,
a fim de ensaiar – foi uma provação hercúlea!);
colaboração com Jardim Do Enforcado, The Great Lesbian Show
e actualmente trabalho no projecto multimédia, Cellarius Noisy Machinae,
ao lado de Jorge Ferraz e de Vítor Inácio, encerrando assim, o círculo musical.
Se nunca mais parei,
também a música moderna portuguesa nunca mais parou.
Enganem-se os jovens actuais que dão por certo o que existe actualmente,
ou que nada houve ao longo da segunda metade do séc. XX, em Portugal,
fazendo tábua-rasa do passado.
Tudo começou nos anos 50, muito pobre mas digno, com Joaquim Costa,
Thilo Krassman, Zurita de Oliveira, Victor Gomes
e prossegue até hoje com grupos artilhados de modernas tecnologias
e meios de divulgação de massas que os “avózinhos” nem sonhavam.
No pain, no gain.

—–

hoje, dia 17, sexta-feira, é o último dia para verem a exposição “under ventures” no palacete dos viscondes de balsemão, no porto. ondina pires, figura insubstituível da nossa música, entre ezra pound ou pop dell’arte,
tem feito alguma justiça de um passado pouco visível: o de outros, através, por exemplo, da edição do livro sobre victor gomes, dos gatos negros, mas, também sobre o seu próprio passado. a exposição recorda a sua vida artística dedicada à música, entre as artes plásticas e a literatura. essas memórias,
paralelas a grande parte da música da segunda metade do séc. XX, estão também aqui, escritas na primeira pessoa.



/ / Etiquetas: , / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 19 Junho, 2015

LUST 880: RITA MAIA


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

19.6.2015
2 COMENTÁRIOS
por RITA MAIA

Para escrever algo para a newsletter, sem saber bem o quê, ocorreu-me, acerca de várias conversas esta semana, escrever umas ideias.

Sobre o documentário que lançámos a semana pela Vinyl Factory sobre o vinil em Lisboa, 1 dos 2 comentários que mais ficaram comigo foi o de um DJ de Angola que se emocionou ao vê-lo, dizendo que se fala muito pouco da influência da música de origem africana na cultura de hoje, o que demonstra a necessidade de se falar disso.
O objectivo nao foi fazer uma lista de lojas, discos, DJ’s e tipos de música típicos de Lisboa em 7 minutos mas sim chamar a atenção para uma parte muito única da nossa cultura (de vinil) em Lisboa.

Sendo a cultura de Lisboa tanto funaná como fado, e nao querendo dizer que são as 2 mainstream (senão não haveria necessidade de falar delas), mas reconhecendo que ambas sempre estiveram presentes, fala-se de que o rasto do regime da ditadura tentou “branquear” uma, hoje isso está ultrapassado e é importante nao suprimir a outra.
Mas a cultura floresce e redescobre-se nos sitios mais improváveis e nós somos por natureza seres muito resilientes.

Diz a sempre leal Wikipedia: “According to the oral tradition, the funaná appeared when, in an attempt of acculturation, the accordion would have been introduced in Santiago island in the beginning of the 20th century, in order to the population to learn Portuguese musical genres. The result, however, would have been completely different: it would be the creation of a new and genuine music genre. There aren’t, nevertheless, musicological documents to prove that. Even so, it’s still curious the fact that, even being a totally different musical genre, the usage of the accordion and the ferrinho in the funaná is analogous to the usage of the accordion and the triangle in certain Portuguese folk music genres (malhão, corridinho, vira, etc.)”.

Aaaanyway, a história dá várias voltas e a cultura está em constante mutação.
O mínimo que se exige neste século num país europeu é que se representem as várias forças que fazem a nossa cultura rica e que os seus agentes tenham espaço para a representar, sem interpretações. Reconhecer esta mais valia para que todos os seus agentes possam contribuir para a cultura geral, através das micro culturas, sub culturas etc.
E existem e sempre existiram brilhantes formas desta representação por verdadeiros guerreiros que criam espaco para se expressarem.
Os contrangimentos podem ser tanto os maiores obstáculos como a maior fonte de inspiração e a criatividade nunca se desenvolve de situações fáceis. O jazz, hip hop, r’n'b, blues, reggae, punk, house, techno, afrobeat, fado, etc etc etc… por exemplo.

Mas esta falta de representação em festivais, rádios, clubes, etc., faz questionar o problema muito maior da (falta de) diversidade das pessoas que têm as posições de poder no país e um problema de accesso a estas. As coisas vão mudando aos poucos mas, vivendo em Londres observo que, na nossa terra, ainda há conversas que precisam de se ter para finalmente se poder evoluir de forma natural, sem entraves.
Ok, é um país pequeno, não existem ouvintes suficientes para esses géneros? Os ouvintes ouvem aquilo que passa na rádio. A cultura evolui quando as pessoas têm acesso a formas de informação diferente. As pessoas têm acesso à informação que lhes é dada pelos programadores de música de um país. É isso que eles ouvem. (Sempre a mesma cantiga.)
Os que têm o poder de fazer evoluir o país, têm medo de arriscar. De perder clientela. De não ser o maior. De não ter trabalho. Ao invés, esse risco é tomado por quem não tem o que perder.

Ainda sobre o doc, a nova cena electrónica usa computadores e não vinil, mas é certo que estes géneros de música africana sempre estiveram lá e há músicos e produtores que de alguma forma encontram, no meio, inspiração nelas, ouvindo em casa, nas ruas, saindo a dançar, etc., partilhando essa identidade, identidade como algo que se forma através de vivências, experiência, proveniência, naturalidade, viagens, caminhos, etc., e, neste caso, ressonâncias com certos ritmos e culturas.

O segundo comentário veio de um DJ de Lisboa que apreciou o facto do vídeo ter juntado pessoas que ainda não se juntam.
Nao se juntam porque não se conhecem. Mas conhecem os mesmos discos e tem ressonâncias com os mesmos ritmos e culturas.
Veio em conversa várias vezes, esta semana, o tópico dos obstáculos que muitos músicos / DJ’s encontram com a falta de entreajuda entre meios e veículos para a promoção de música e as pessoas que nisso estao envolvidas. Apesar de isso acontecer de certa forma, sempre em todo lado, parece que há alguma ligação nestes temas, de falta de abertura à mudança, ao diferente, ao desconhecido, o medo como reacção a isto pode ser o maior entrave de todos…

Obrigada. Parabéns a todos aqueles que (sobre)vivem de/para isto.

—–

rita maia leva 4 anos de programação semanal na resonance fm, a partir de londres (mais recentemente, o programa também passa na oxigénio, em lisboa). campeã de sons globais, dj, divulgadora sem falta de fôlego, associada a outras plataformas fulcrais na música de hoje como sejam a nts radio, red bull music academy, giles peterson (ele próprio já uma plataforma, não?), boiler room, solid steel da ninja tune, etc., a rita não só é viajada como possui uma rara visão de conjunto sobre a música que adora e à qual precisa de estar ligada. por estar fora de portugal, tem também uma perspectiva saudável, neutra mas entusiasmada, do que andamos todos a fazer por aqui.
como parte de um trabalho ainda em progresso, organizou há pouco tempo, para a vinyl factory, um documentário filmado em lisboa. é sobre lojas de discos, comprar vinil e procurar música africana numa cidade onde esses discos ainda estão disponíveis a quem sabe onde procurar.
vejam aqui: https://youtu.be/q6yKstEAN5A



/ / Etiquetas: , / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 12 Junho, 2015

LUST 879: PEDRO OLIVEIRA


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

12.6.2015
NOVAS BATALHAS
por PEDRO OLIVEIRA (OZO)

Havia um tipo que passava lá pela empresa
que tinha uma conversa engraçada embora eu nunca o levasse a sério.
Era um daqueles “gajos porreiros”
com quem é bom trocar dois dedos de conversa ocasional.
Encontramo-nos em dois ou três momentos,
com quatro ou cinco piadas de cada vez
e um “xau aí” para rematar cada encontro.

Um dia esse “xau aí” deixou-me a pensar:
“será que o gajo porreiro também faz ‘umas coisas’?”.
Duas ou três pesquisas e quatro ou cinco resultados depois,
o tipo das piadas era, afinal,
um aglomerador compulsivo de “lixo” dentro de um piano.
Porrada daqui, porrada dali e o resultado final musical era mágico.
Aplicava uma série de conhecimentos académicos
que lhe penhoraram uma infância normal,
juntamente com uma linguagem experimental que foi adquirindo,
que o tornavam quase num tipo bipolar
ao comando de um piano sucateiro,
que rapidamente se transformava na mais requintada progressão impressionista.
No encontro seguinte,
as quatro ou cinco piadas transformaram-se em duas ou três palavras assertivas
sobre a partilha de uma linguagem.
Ele afinal também tinha feito quatro ou cinco pesquisas
que lhe tinham dado dois ou três resultados
sobre um baterista gigante e desengonçado
com queda para transformar panos de cozinha,
latas velhas e pedais de guitarra numa maquinal bateria kraut alemã.

Oito de Fevereiro de 2015, pelas nove horas da manhã,
foi o dia marcado para o duelo,
em que cada um compareceu com um saco de “sucata”
impecavelmente preparada para servir de artilharia.
Em silêncio começamos a arremessar “coisas” um para o outro.
Na assistência estava um tipo acabado de chegar de Londres,
também ele com as suas quatro ou cinco ferramentas de registo,
e a motoqueira de Gaia com as suas máquinas em riste.
Poucas palavras foram ditas.
Olhei para o relógio e quase oito horas tinham passado:
dissemos milhares de coisas sem nunca termos aberto a boca,
a única coisa que se trocava eram os nossos olhares, ora de surpresa, ora de angústia.
Adoro batalhas,
principalmente quando elas não se afastam nem por um milímetro
do plano de guerra que acabo por nunca traçar.

—–

conhecemos o pedro oliveira de outras lutas, à bateria dos nortenhos peixe:avião. aí, reinam as canções, sobretudo. daí que um disco de bateria e piano preparados vire as nossas cabeças imediatamente. a estreia do seu duo com paulo mesquita acabou de acontecer. leiam acima como nasceram os ozo.



/ / Etiquetas: , / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 5 Junho, 2015

LUST 878: MIKE EL NITE


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

5.6.2015
PEDALADA
por MIKE EL NITE

Fui com dois amigos
ao festival Músicas Do Mundo em Sines,
decidindo ir de bicicleta.
Apanhámos o comboio até Setúbal,
o ferry até Tróia,
e a partir daí pedalámos Nacional fora.
Esperavam-nos 8 horas a pedalar,
por isso tivemos muito tempo para conversar,
e entre cânticos, disparates, comentários à paisagem,
aos passageiros dos carros que passavam
e aos nomes de cafés e placards publicitários,
eis que surge o tema televendas:
“É sempre granda desfaine”

“Compre já este fantástico produto
por apenas muito mais dinheiro do que ele realmente vale
(produto não incluído)”

“Adquira esta fabulosa bicicleta de estrada vintage!
(rodas não incluídas)”

“Se ligar já oferecemos-lhe ainda este produto inútil
cujo custo já estava incluído no preço que ia pagar!”

“POR APENAS 25 EUROS!!!
Mais uma mensalidade de 10 euros durante dois anos”

E já embebido em humor e cansaço,
eis que se abate uma epifania sobre mim:
e se eu canalizasse este conceito para o meu release?
As músicas já as tinha praticamente todas,
mas faltava um conceito que as embrulhasse
e as oferecesse como um todo:
eram temas tresmalhados.
E o que é que combina Portugal, internet art,
ironia sobre a comercialização da música,
e um pouco de estética vaporwave?
Vaporetto Titano!

É preciso ter pedalada para ir até Sines de bicicleta,
mas também é preciso ter pedalada
para estar em dia no meio em que trabalhamos,
e ironicamente ou não,
foi a pedalar que encontrei a melhor forma de lançar o meu segundo EP,
por apenas 0 euros mais 0 euros de portes de envio
e ainda com a oferta de absolutamente nada
a não ser o EP em si!
(EP não incluído)

—–

encontrámo-lo, tal como muita gente, com o estrondo de “mambo nº. 1″, há quase dois anos. ironicamente, foi este mesmo “mambo”, agora em versão arrebatadora de ghost wavvves, que nos deu o outro kick especial. a modernidade do seu som e a acutilância rebelde e humorística das suas palavras, transformaram mike el nite num ponta-de-lança do nosso hip hop. ouçam as soluções de “vaporetto titano”, o novo ep que custa zero euros e que comprova tudo o queremos dizer. sigam-no aqui:

https://www.facebook.com/mikeelnite

ouçam-no aqui:

https://soundcloud.com/mikelnite



/ / Etiquetas: , / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 29 Maio, 2015

LUST 877: NIAGARA


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

29.5.2015
OBRIGADO
por NIAGARA

É bem fácil esquecer a quantidade de coisas boas que acontecem simplesmente por estarmos rodeados de outras pessoas. Claro, isto depende das pessoas – vulgarmente, algum do mal que acontece partilha a mesma proveniência.
Para nós, a quantidade de coisas boas que aconteceram é brutalmente evidente. Por isso, aqui ficam algumas: não tínhamos capas e cartazes tão bonitos, não tínhamos tantas pessoas para falar sobre música, não tínhamos tantos sítios para tocar, não tínhamos a satisfação de partilhar a nossa música com pessoas que respeitamos, não tínhamos tantos discos bons, não tínhamos tantos amigos, não tínhamos tanta vontade, não tínhamos tantos desafios, não tínhamos ninguém a passar a nossa música, não tínhamos ninguém a ouvir a nossa música e não tínhamos ninguém para nos ajudar com coisa nenhuma.

Obrigado! Nelson, Zé, Márcio, André A., André S., Afonso, Pedro Gomes, Marlon, Marco, Miguel, Isilda, Marta, Vítor, Nervoso, Charles, Raimundo, Ricardo, Rui E., Ruben, Pedro B, João S., Pedro P., Dexter, Tiago, Kaspar, Inês C., Lamego, Musti, Eric, Tigre, Visconde, Óscar e Tobias.

—–

mês de maio abundante para o trio niagara, com edições na príncipe e ftd a assinalarem um resto de ano promissor (data ao vivo em londres, no cafe oto, no final de junho, por exemplo). a sua música atingiu-nos forte primeiro ao vivo, com sets ao vivo em que as mãos mexiam de facto nas máquinas, um som rude, corajoso, clássico e fresco. o mini-cd na dromos fixou o seu nome para a posteridade editorial e, desde então (2011-12), nunca mais sairam do nosso radar. alberto e antónio arruda + sara eckerson fazem house em cima da mesa de trabalho e, mesmo que lhes apontem um não-sei-quê de cerebral, é no plano físico concreto que a sua música bate. é como metal em rocha, é assim tão presente.



/ / Etiquetas: / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 22 Maio, 2015

LUST 876: LUÍS CLARA GOMES


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

22.5.2015
ELSEWHERE
por LUÍS CLARA GOMES (MOULLINEX)

1. “Trip Advisor”: É o primeiro tema e é uma introdução ao mundo do disco. É também a apresentação da instrumentação: teclados, baixo, guitarra, flauta e bateria. Começa num registo alegre e tem um twist melancólico na segunda metade. Também assim é o álbum e o LP.

2. “Take A Chance”: Foi o tema mais rápido a gravar e compor, e talvez por isso seja o mais imediato.

3. “Things We Do”: Sempre imaginei esta música como uma kizomba vestida de soft rock.
O beat sincopado no fundo, com algumas camadas de instrumentação smooth, acabando na flauta a dar um toque MPB no final. Ainda não filmámos o videoclip para esta música
mas imagino sempre um culto religioso fanático vestido de branco a cantar “with open arms we love everyone”.

4. “Elsewhere”: Dei titulo ao álbum a partir desta música, por sentir que definia de uma forma clara o mundo que desenhei para este conjunto de canções. É uma homenagem aos álbuns de estúdio em que o estúdio foi visto como um instrumento, e no qual se tentavam ultrapassar os limites da música gravada. Exemplos: Pet Sounds dos Beach Boys, Maggot Brain dos Parliament/Funkadelic

5. “Don’t You Feel”: Esta música tem uma subida durante toda a segunda metade. Foi um pesadelo para a gravar, e o medo de mandar pregos na linha de baixo, ao vivo, subsiste!

6. “Anxiety”: A melhor participação vocal neste disco está a cargo do meu cão, aos 2:52.

7 + 8. “Lies pt. I + II”: Começou como uma jam de synths, em estúdio, ao vivo (para os interessados, Roland System 100m, Sequenciador Eurorack a clockar um Korg Monopoly com um Stage Echo, Polivoks e Octave Cat). Esta gravação foi mantida quase intocada na parte I. Na parte II peguei na mesma linha de synths para construir uma canção,
esta também com um twist no final.

9. “Can’t Stop”: Definitivamente a mais orientada para a pista. O ruído omnipresente é piscar de olho ao primeiro álbum do Jon Hopkins. Este tema é dos mais divertidos de tocar ao vivo.

10. “Widening Circle”: Para parafrasear amigos do Norte, as guitarras “com mais pêlo” do disco estão nesta música.

11. “Sing My Heart Asleep”: Tinha que ser este o tema de despedida, por começar quase baladeiro, passar por guitarras do deserto, e terminar em synths arpegiados, o “regresso a casa”.

—–

em cima do segundo álbum como moullinex, luís clara gomes, que “dorme muito pouco”, faz-nos uma tour do disco a partir da sua visão de autor. o empenho que tem colocado na actividade musical que o representa é explicado pelo curriculum. remisturou, por exemplo, sébastien tellier, röyksopp & robyn, cut copy, two door cinema club. mais alto do que isso fala o seu estatuto de fundador da discotexas, editora e colectivo hoje em dia mais global que nacional, com muito orgulho. o trabalho foi todo certo desde o início em 2006, continua certo em 2015 e, como luís ainda afirma que dorme pouco, prevê-se que isso se traduza em bons frutos também no futuro.



/ / Etiquetas: , / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 15 Maio, 2015

LUST 875: DIOGO LIMA


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

15.5.2015
A SINGULARIDADE DE UM REGISTO PLURAL
por DIOGO LIMA (DJ KHABAL)

Aquando do pensamento primário de como (ou não) definir uma sonoridade associada a um país ou mais exclusivamente uma cidade, as dúvidas ressaltam nas mais básicas questões.

Como? Como definir uma sonoridade que é efetuada ou pensada para um todo; veja-se a visão de um artista que pensará sempre num registo alargado e que nunca se focaria apenas numa sonoridade para uma cidade ou um pais em específico; conseguindo que o nome dessa sonoridade seja percetível para uma linguagem musical comum abrangente numa comunidade ativa tão específica.

Por comunidade musical ativa entenda-se músicos, performers, djs, programadores, clubes, espaços culturais, plataformas, imprensa, plateias, ravers, festivaleiros e todos os infindáveis “pushers” que voluntariamente ou involuntariamente trabalham para um todo que sustenta a atividade de cada um.
Seria esta a mentalidade que devia ser calculada quando todos partimos do principio que se existirem meios devidamente regulamentados, institucionalizados , e associados a uma atividade económica e empresarial ao nível da indústria da música, proporcionaria por si própria oportunidades constantes aos mais diversos expressionistas nesta área.

Questionando tudo aquilo que se infere pelas críticas mais constantes neste meio, deparamo-nos que a falta de profissionalismo ou do bem fazer de certa entidade ou artista compromete o desempenho do outro aquando do que tenha sido acordado previamente não tenha correspondido nas devidas condições. Agem maioritariamente de forma individual, pouco interagem no que toca a partilha de “know how“, despreocupando-se por completo com aquilo que vem do outro achando que cumprindo o seu próprio dever (bem ou mal) o contributo foi dado.

Sintetizando aquilo que foi dito anteriormente existe (na minha humilde opinião) uma lacuna abismal na cooperação de espólios individuais e de visões muito próximas ou idênticas para o atingir de um fim. Fim esse que seria uma composição mais uniforme daquilo que se pode definir uma identidade musical mais concisa e definida, que nos deixasse orgulhosos enquanto consumidores de haver suporte sustentável em cada espectro musical.

Querendo dizer que o facto da não cooperação ou a falta do chamado “trabalho de equipa” tão proclamado nos métodos empresariais não ser visto nem denotado no panorama musical que vivemos nos nossos tempos.

A abstinência das chamadas “crews” ou coletivos a exercer em força a elevação quantitativa de um certo nicho ou género subdesenvolvido ou mesmo que seja desenvolvido e afirmado, tornando-o sustentável para os anos vindouros e mostrando que aqui faz-se “isto” ou “aquilo” desta maneira ou da outra, mas essencialmente… à nossa maneira. E a nossa maneira é muito boa.

Deixemos para trás por momentos a nossa própria afirmação individual enquanto artista, a nossa mesma expansão perante as massas ou determinado público, focando-nos na contribuição por momentos para a criação da devida estrutura profissionalizada desta área comparativamente a muitas outras. Delineando o caminho para a verdadeira essência da indústria e do consumo musical enquanto método de desenvolvimento identitário.

Tentando não apontar dedos ao que surge de novo porque não o percebemos, tentando não apontar o dedo ao que já foi feito porque não acrescentam nada de novo, abdicando da velha lenga-lenga que “Portugal não é um pais de subgéneros” só porque certos géneros prevaleceram mais que outros, tentando agir coesa e coerentemente em termos editoriais e discográficos para que se consiga igualar mercados internacionais e com a igualdade e emanação dos mercados, dos artistas envolventes, proporcionar uma atividade profissional sustentável para a liberdade, criação e expressividade de novas formas musicais.

Uni-vos e proclamai a Identidade Portucalense nesta indústria subaproveitada perante tantas outras, trabalhemos em prol de um único objetivo. Elevar além-fronteiras aquilo que tão bem se cria em Portugal para que chegue aos outros da mesma maneira que o dos outros chega a nós. Imaculado e desprevenido de crítica. Criemos o desenvolvimento de uma indústria musical adequada à competitividade e criatividade eminente neste meio. Quando houver o “nós” será mais fácil para o “eu” e para o “tu”. Despoletámos o cérebro engenhoso e genial da raça latina , agora é altura de o saber usar para um desenvolvimento sustentável. Para a não estagnação do processo criativo. Criemos a nossa própria experiência e seremos os maiores, dispensando aqueles que nos aconselham a não ir por ali.

—–

verdadeiro manifesto em prol da união, por diogo lima, um dos mentores da editora golden mist, cuja recente primeira edição em vinil já nos chegou. A editora é também suporte para lake haze, um dos produtores portugueses mais evidenciados no circuito electrónico de dança, actualmente, mas é sobretudo mais uma valiosa contribuição para o todo que, neste momento, se observa em portugal. alguns lembrarão os 80s, outros os 90s, mas estamos já bem dentro de um outro período especialmente criativo e representativo na música independente que se faz/produz em portugal. a golden mist é prova disso.



/ / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 8 Maio, 2015

LUST 874: RUI MAIA


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

8.5.2015
VIAGEM
por RUI MAIA

Fico sempre reticente quando tenho que viajar.
Sinto realmente um calafrio quando penso que tenho de fazê-lo.
À partida tenho vontade de não ficar longe da minha base,
mas estranhamente, quando me encontro em plena viagem
ou mesmo uns dias fora de casa,
observo e procuro inspiração em tudo.
Sou um tipo estranho que pensa que não gosta de viajar
mas todo este processo funciona como uma balança para mim.
O mundo ‘lá fora’ vs. mundo ‘cá dentro’,
a boa rotina vs. o desconhecido.
No fundo adoro viajar,
mas também adoro o ‘meu universo’ e tudo o que o rodeia.
Posso afirmar que também gosto de viajar mentalmente.
Imagino-me em diferentes locais,
a absorver outras culturas ou a partilhar ideias.

Durante uma viagem pelos Estados Unidos
em tour com a minha banda X-Wife,
tive a ideia de formar um projecto de música de dança de nome Mirror People.
Tudo foi pensado e idealizado naquelas poucas horas.
O nome pareceu-me perfeito,
o ambiente musical pareceu-me um bom ponto de partida.
As viagens foram percorridas
e as minhas ideias foram sendo moldadas e aperfeiçoadas –
5 anos depois e após edição de vários EP’s em algumas editoras que me orgulho
- eis que chega o momento do meu álbum de estreia.

“Voyager” é o título perfeito para a situação.

Além das colaborações espalhadas pelo mundo,
James Curd vive em Sidney, Rowetta em Manchester, os Hard Ton em Milão
ou a Maria do Rosário que vive a poucos quilómetros de mim em Lisboa,
fiz questão de misturar imensos géneros neste disco.
A nostalgia portuguesa está presente,
juntamente com as percussões africanas,
com o Punk Funk de Nova Iorque,
com as guitarras mais Inglesas ou com os sintetizadores mais frios de Berlim.
A maior parte das canções são compostas por um cruzamento de linguagens
- têm um lado mais humano com bateria, baixo ou saxofone
com um lado maquinal dos sintetizadores e caixa de ritmos.
Fiz questão que assim o fosse para dar esta sensação de “viagem”.

—–

eis, finalmente, o álbum de mirror people. um alias que rui maia há muito defende. do outro lado do espelho dos seus x-wife, rui procura paisagens mais electrónicas, profundamente marcadas pela pista de dança e por um sentido pop de múltiplas referências. uma ideia global que, como diz rui no texto acima, virá do seu gosto por viagens e por aquilo que trazem. sigam com ele.



/ / Etiquetas: , / / Comentar: aqui »

Quinta-feira, 30 Abril, 2015

LUST 873: TIAGO SOUSA


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

30.4.2015
PIANO
por TIAGO SOUSA

O momento em que um piano apareceu plantado no meu quarto,
no sétimo andar de um prédio suburbano no Barreiro,
foi um momento definitivo na minha vida.
A disrupção deste tem provocado ondas de impacto
cuja cadência imprime um ritmo particular à minha vida.
Sei que o resultado dessa cadência
não é de utilidade para propulsar os fluxos da produção contemporânea,
provavelmente terá pouca utilidade para alguém outro que não seja eu,
mas a inutilidade chega-me.
Num mundo que se organiza em torno das mais abstractas ocupações de tempo
tendo em vista a sua transformação em produtividade
parece-me plano suficiente fazer algo que não serve para coisa nenhuma.
«Rapidamente passam Primaveras e Outonos,
solitariamente sem laços com o mundo.
Alegremente confiar em quê?
Calmo como água de rio no Outono?»

—–

a meio caminho do seu novo álbum, com saída para o final deste ano, um pequeno disco muito especial e inesperado de tiago sousa ocupa-nos. a edição é do próprio tiago, oferecida no seu último concerto no teatro maria matos. algumas das poucas cópias que sobraram estão acessíveis pelo músico e aqui na flur. não hesitem demasiado: o preço não vos irá deter. músico generoso e com as ideias no lugar, a intro desta semana é uma reflexão do tiago sousa sobre o impacto que o seu piano provoca na sua vida. e temos tido muita sorte em sentir esse impacto também.



/ / Etiquetas: / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 24 Abril, 2015

LUST 872: RUI MIGUEL ABREU


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

24.4.2015
DISCOS, FLUR, ÁFRICA
por RUI MIGUEL ABREU

Num dos últimos Record Store Days,
certamente no último que celebrei activamente,
a Flur repetiu um convite que já antes me tinha dirigido
e desafiou-me a escolher discos para fazer um mural
que decorasse a parede por trás do balcão.
Ao primeiro desafio respondi com discos seleccionados
para obedecerem a uma ideia gráfica – mas também musical –
de espaço e electrónica.
Da vez seguinte, a que aqui importa,
decidi seguir na direcção oposta e elegi África como tema.
Desse mural africano constavam discos de jazz, de house,
de hip hop, mas também, como é óbvio, de múltiplas áfricas,
incluindo as que estão mais ligadas à nossa história.
Depois do Record Store Day esses discos permaneceram de lado,
antes de regressarem às respectivas secções nas estantes lá de casa.
E quando o meu amigo Rocky Marsiano me desafiou
a seleccionar um conjunto de discos
que ele pudesse usar como base sampladélica
para um novo trabalho eu virei-me, muito naturalmente,
porque estavam ali à mão de semear, para esses discos.
Estava lá Angola e Moçambique e Cabo Verde
e foi matéria de vinil dessas origens que enviei para Amesterdão,
para que Rocky as pudesse estudar e transformar.
O resultado foi o álbum “Meu Kamba” que, não tarda nada,
terá um filho, um single de sete polegadas.
Record Store Day, espaço, África, “Meu Kamba”, vinil.
Como é que se costuma dizer?
Uma borboleta bate as asas em Xangai
e o Kendrick Lamar chega à Casa Branca em Washington?
Isto anda mesmo – MESMO – tudo ligado.

—–

rui miguel abreu, daquelas pessoas cujo curriculum é demasiado vasto para listar de ânimo leve. vive e respira música, muita música (toda a música?) enquanto jornalista, essencialmente, mas também já teve uma loja de discos, editoras, fez trabalho de agenciamento, produção, fez música, passa música, é blogger, organiza eventos e mais coisas que de certeza não estamos a dizer.
ele é o principal dinamizador do mercado de editoras independentes que acontece este fim de semana no príncipe real, em lisboa; é também a força principal por detrás
da nova publicação online rimas & batidas, dedicada a hip hop mas também a toda a música electrónica contemporânea e não só.
é melhor pararmos, investiguem o mercado, estejam atentos ao site e passem, ainda, pelo seu http://www.33-45.org/
há poucas coisas tão certas, no circuito, como a presença do rui miguel enquanto divulgador. se piscam o olho demasiadas vezes é provável que percam alguma das coisas que ele anda a fazer, mas não faz mal, podem apanhá-lo em qualquer momento do futuro,
se o vosso interesse por música não se desvanecer.



/ / Etiquetas: , / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 10 Abril, 2015

LUST 870: TIAGO CAVACO


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

10.4.2015
AGUARDELA ENTRE A ESPADA E A PAREDE
por TIAGO CAVACO

Vivo ao lado de um Centro Comercial que já foi importante.
Vivo em Oeiras e esse Centro Comercial chama-se Palmeiras.
Antes do advento dos multiplexes, estes sítios eram um luxo.
O Palmeiras é parente do Fonte Nova, para dar um exemplo menos suburbano.
Ora, no Palmeiras há todo o tipo de iniciativas que visem impedir a sua decadência
(valeria a pena recuperar o seu cinema, por exemplo).
Uma dessas iniciativas é uma feira do livro que,
volta e meia, ocupa a sua praça central.
Essa feira do livro tem preços imbatíveis.
Andei a oferecer Flannerys O’Connors e Evelyns Waughs
aos meus amigos à custa disso.
E também dá para comprar outros livros que,
se não fosse um preço estupidamente baixo,
provavelmente nunca compraria.
Comprei “Morrer na Praia do Futuro” sobre o crime macabro de Luis Militão Guerreiro
que levou a vida de seis empresários portugueses (que livro!).
Mas divago.
Queria chegar a outro lugar:
“Esta Vida de Marinheiro” de Ricardo Alexandre,
sobre a vida de João Aguardela.

Na minha memória há um concerto no Parque Central da Amadora,
algures entre 1994 e 1995,
em que os Sitiados provocaram um mosh pit medonho
que juntava brancos, pretos, metálicos, xungaria, skins e punks, entre outros.
Lembro-me que eu e o meu amigo Emanuel Conde
aperfeiçoámos uma técnica de sobreviver na molhada
que era abraçarmo-nos e usarmos as pernas como hélices
que impedissem aproximações mais hostis.
Funcionava.
E funcionava sobretudo tendo em conta que um concerto de Sitiados era selvagem.
Era gloriosamente selvagem.
Desde essa altura que passei a admirar João Aguardela.
Desde essa altura e desde que a minha irmã gémea comprou o “E Agora?”,
o segundo álbum dos Sitiados.

Os Sitiados ajudaram a criar em mim uma trégua entre o meu punk militante da adolescência
e a convicção que o futuro tinha de vir de mãos dadas com a música da nossa tradição
(nunca teria gravado o meu primeiro disco a solo,
“Fados Para O Apocalipse Contra A Babilónia”, sem isso).
Fiquei triste quando Deus chamou tão cedo o João Aguardela em 2007.
Como um bom fã, gostava de o ter conhecido para lhe dizer da importância que ele teve para mim
(uma vez vi-o com a Sandra, sua companheira de música e de vida,
na Loja do Cidadão mas faltou-me a coragem).

O Aguardela tinha um credo que também confesso.
Esse credo sugere que a música é tão mais interessante quanto stressada entre a espada e a parede.
O que é que isto quer dizer?
O coração do Aguardela não fervia pelos músicos habilidosos
e que transmitem domínio da sua arte.
O Aguardela dizia mesmo que a música portuguesa a partir dos anos 90 era desinteressante
porque os músicos portugueses aprenderam a tocar tão bem como os músicos estrangeiros
(e, consequentemente, a imitá-los na perfeição).
Passaram a ser músicos aburguesados.
Se olharmos para o Aguardela, vemos que o seu credo não era só teoria.
Os Sitiados nunca quiseram aperfeiçoar o seu trad-rock
para se colocarem como versão local dos Pogues.
Fizeram esquisitices com a electrónica, borrifaram-se para novos êxitos,
acabaram quando acharam que não tinham mais nada de interessante para dar.
A seguir, o Aguardela meteu-se no Megafone
(uma coisa que, nunca me tendo dado muita pica, ainda assim me inspirou
- o Aguardela fez uma coisa que também fiz
que era deixar às escondidas os meus discos nas prateleiras de fado da Fnac
quando não os conseguíamos distribuir comercialmente).
O Aguardela ainda foi à Linha da Frente e à Naifa, coisas a que não prestei muita atenção
mas que foram contra-a-corrente num contexto global de conformação e tédio.

Uma música entre a espada e a parede
é uma música que não finge que antes de nós não veio ninguém.
É uma música que nos aperta
porque nos permite criatividade a partir de um princípio que não estamos sozinhos.
É uma música que, se calhar, antes de celebrar génios, celebra entalados.
Celebra músicos que andam às voltas com o antigo e com o novo,
sem isenções espácio-temporais – somos daqui e estamos aqui agora.
Nesse sentido, uma música entre a espada e a parede é, paradoxalmente,
uma música mais comunitária.
É uma música de uma paz mais esforçada mas de uma paz muito mais genuína.
É com essa paz que cumprimento todos os músicos e amantes de música – shalom!

—–

tiago isto, tiago aquilo, os sons dele já nos chegaram sob diversos nomes, no momento é lacrau e este texto vem a propósito de duas coisas: o álbum “sou imortal até que deus me diga regressa” e mais uma visita à flur, sábado, 11 de abril, às 17h, tiago lacrau ao vivo!
os presentes nas sessões da xungaria no céu (com, entre outros, samuel úria e alex d’alva teixeira) já conhecem o tom e a diversão puxada por letras afiadas e camaradas. o tiago vendeu a alma ao punk, há muuuitos anos, e é um dos elementos fundadores da flor caveira (ou florcaveira?), um colectivo que, desde o início do século, tem ajudado a resolver quaisquer problemas de identidade que a música pop portuguesa possa ter em relação à sua origem e tradição. canta sobre coisas nossas, coisas da rua e do céu, para unir todos os que consegue unir. é bonito.



/ / Etiquetas: , / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 27 Março, 2015

LUST 868: GUILHERME GONÇALVES


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

27.3.2015
Hz
por GUILHERME GONÇALVES

A minha vida mudou muito nestes últimos meses.
Disco novo, emprego novo, casa nova, amor novo, música nova…
Sem dar por isso abandonei vícios, costumes e músicas antigas.
Talvez tenha sido por causa disso que de repente
me vejo rodeado por uma corrente de novidades constantes!
Sejam elas boas ou más!
Continuo a ter grande carinho por todos os meus vícios,
costumes e músicas passadas…
Fazem parte da minha vida e ajudaram a construir a pessoa que sou hoje!
Seja isso o que for…
Sinto que de alguma maneira se fecha um ciclo e se começa um novo…
Nem que seja pela sensação da chegada da Primavera!

CLICHÉ: A vida é feita de ciclos!

Morre-se para se nascer de novo,
faz-se para deitar abaixo e fazer outra vez…
Andamos aqui todos no Samsara!
A cena é que… cada vez que se nasce de novo,
parece que se nasce melhor!
Com mais pica! Mais fulgor! Menos Ego!
Mais paixão!
Nasce-se mais maduro talvez…

Frequência é a grandeza que indica o número de ciclos
que ocorrem num determinado intervalo de tempo.
A sua unidade é o Hertz (Hz).
É difícil de medir com que frequência
as pessoas renascem ao longo da sua vida…
Cada um tem o seu ritmo…
É mais fácil medir e observar alguns ciclos do Planeta…
o ciclo das estações… os ciclos da Lua…
É ainda mais fácil medirmos o espectro sonoro,
o espectro da luz ou as nossas ondas cerebrais…
Talvez ainda seja mais fácil estabelecer uma relação entre isto tudo
e concluir que somos todos feitos de frequências, ciclos, som e luz…

“One Hot Minute dos Red Hot Chilli Peppers” foi editado em 1995…
faz em Setembro deste ano 20 anos…
Foi um disco que fez parte da minha pré-adolescência…
tinha 11 anos quando o ouvi pela primeira vez.
A título de curiosidade fui ouvi-lo agora…
e por incrível que pareça ainda me relaciono e gosto daquela música!
Somos todos feitos de ciclos, frequências e blá blá blá…
Mas há mesmo coisas que nunca mudam.

—–

conhecemos o guilherme de muitas andanças e vocês também: ex-guitarrista dos gala drop, músico que se esconde atrás do nome coclea, técnico de som de músicos de quem gostamos, produtor de músicas de que gostamos. finalmente há nova música dele e podem ler lá para baixo o que dizemos sobre o novo álbum. demos-lhe espaço para mais coisas
e o guilherme ofereceu-nos um pedaço vintage de si, de 1995.



/ / Etiquetas: , / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 20 Março, 2015

LUST 867: DE LOS MIEDOS


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

20.3.2015
A HISTÓRIA EM QUE A MÚSICA NOS TRAI
por DE LOS MIEDOS

Lá vem ela de um instrumento para um disco, de um disco para uma rádio
e por ai vai ela aparecendo de forma a nos apercebemos da sua existência.
Por vezes vem despercebida e não lhe damos a devida atenção,
mas ela passa por todos e devora os mais atentos!
Fartamo-nos de uma, trocamo-la por outra,
ela também não faz mais nada se não ir ter com outros!

Os filmes que ela faz, as Histórias que ela conta.
Uns ficam apaixonados, outros viciados, até há quem fique triste.
É assim, ela vem cheia de vida e sentimentos.
Mesmo quando morremos ela fica cá e continua a ir ter com todos.

Pessoalmente não me lembro de a ter conhecido,
não sei de onde veio mas agora também faz parte de mim.
Uma noite em que saímos juntos apercebi-me de como ela andava com todos,
no bar com uns, na casa de banho com outros,
na pista de dança então era uma verdadeira orgia.
Havia quem não gostasse e tinha de ir ter com ela a outro lugar.
Para os que ficavam ela comia-os a todos.

No final ainda se sentou ao meu lado no carro e veio comigo para casa.
E isto foi apenas um episódio de umas horas.

Se formos ver no dia a dia o número de pessoas
com quem ela está por breves minutos é infinito.
Por uma estação de rádio,
pela quantidade de discos em que ela é gravada, e ainda é paga.
Já nem entendo se ela é uma puta, se ela é o quê!?
Chamam-na de Música.

—–

de los miedos entrou forte no fascínio pelos beats e melodias do médio oriente,
no qual se inclui a turquia. enquanto dj, procurava os sons exóticos que rockassem as gentes e, como não é muito fácil sustentar essa orientação apenas com o que existe no mercado, o passo lógico seria tratar ele próprio de produzir os discos que queria ouvir e tocar. de los miedos foi à fonte, entrou em contacto directo com músicos turcos
e passou a ter um canal aberto pelo seu entusiasmo e dedicação. dois discos de edits seus, com os originais a serem fornecidos “em mão”, e um terceiro, agora uma colectânea,
que só não chega esta semana porque a impressão da capa não correu bem. o primeiro esgotou, o segundo praticamente. empreendedorismo? é uma palavra inventada à pressa.
isto é um trabalho de amor.



/ / Etiquetas: / / Comentar: aqui »

Sexta-feira, 13 Março, 2015

LUST 865: SABRE


Desde Maio de 2002, praticamente todas as semanas, enviamos uma newsletter com novidades, reposições e comentários a discos. Convencionou-se que seria útil ter uma pequena introdução, geralmente relacionada com algum acontecimento musical dessa semana, ou desse período, ou sobre discos que escolhíamos destacar.

Em Setembro de 2014 resolvemos entregar esse(s) parágrafo(s) a convidados que poderão partilhar connosco e convosco alguns pensamentos sobre música, o mercado, a cena, as cenas, detalhes sobre as suas próprias actividades, etc. Em baixo podem encontrar os textos publicados até ao momento.

—–

13.3.2015
AIR LOOM CONTINUUM
por SABRE

James Tilly Matthews foi um comerciante de chá galês
com ligações aos Girondinos e assombrado por conspirações,
que, apesar da bizarria do seu carácter e das suas declarações, teria sido apagado da história,
não fosse também um dos primeiros casos documentados de esquizofrenia.
Afirmava que perto do sanatório de Bethlem onde foi internado,
um grupo de espiões tinha criado uma máquina chamada de Air Loom,
cujos raios emitidos tinham o poder de influenciar os pensamentos e as tomadas de decisão
– neste caso nos meandros da espionagem política.

Partindo do simbolismo desta criação e assumindo uma certa paranóia benigna,
não é descabido pensar como ao longo da história muita da cultura
e da sua aceitação/compreensão/percepção tem sido alvo de vários Air Looms.
Obviamente que a música não é uma excepção,
e deixando de lado as condições socio-político-geográficas-etc de influências normais na construção cultural,
não deixam de existir factores fantasma que elevam algumas ideias a torrentes de atenção
mais ou menos inexplicáveis e com efeitos tendencialmente perniciosos.

A rádio terá tido um poder imenso – nunca esquecer o ‘War of the Worlds’ –
e as ondas electromagnéticas tão depressa criaram uma british invasion
quanto alguns anos antes trataram de mostrar aos míudos ingleses os blues vindos dos Estados Unidos.
Mas seria o advento da rádio pirata o verdadeiro Air Loom beatífico,
dando espaço ao Jungle ou ao Grime para se propagarem na clandestinidade.
Nos tempos áureos da MTV falava-se com exagero numa lavagem cerebral.
O trve underground vs mainstream de um mundo onde a ‘La Isla Bonita’ e a ‘Punisher’
não podiam coexistir harmoniosamente – podem, claro.
O raio catódico enquanto veículo de transmissão maquiavélico?

A Internet viria apenas a acentuar toda esta difusão,
espraiando a máquina de influência em todas as direcções –
e onde a ausência de filtros eficazes é uma realidade.
Ainda assim, no meio desse vortex caótico vão-se escapando algumas tendências mais perenes
– aplicadas ao quão efémeras todas estas coisas são actualmente, entenda-se –
através de um alinhamento nebuloso da parte de alguns canais para a criação de uma narrativa precoce.
Daqui a alguns anos talvez se olhe com algum desdém
para a hegemonia do techno mais ruidoso e bovino destes últimos tempos,
com as suas peças verdadeiramente relevantes a perderem-se num miasma de discos subpar.
Até lá, é ir tentando separar o trigo do (muito) joio, talvez.

—–

como sabre, foi em 2013 que bruno silva e carlos nascimento entraram com força no circuito de música de dança. activos neste século com outros projectos como ondness, osso ou ghoak, não há nada de novato neles. os maxis na wt e na tasteful nudes reforçaram a presença de lisboa no movimento global que, por estes dias, já não tem bem um nome, atinge a maturidade algures entre disco, house e restos de bass. “morning worship” saiu agora na clone / royal oak, mais um pé bem fincado na zona mais interessante do circuito.



/ / Etiquetas: / / Comentar: aqui »